Geraldo Campos Jr. e Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA

O preço da energia no mercado de curto prazo, calculado pelo PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), disparou na noite desta quinta-feira (15) para perto do teto regulatório. O indicador, que é referência para comercialização no mercado livre, subiu 2.409% ao longo do dia, motivado pelo aumento do consumo de energia no horário de pico, devido às temperaturas elevadas, combinado com a queda na geração eólica no Nordeste.
O PLD saiu do piso de R$ 57,31/MWh (megawatt-hora) entre a manhã e a tarde para R$ 1.437/MWh durante a noite, segundo dados da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia). O teto fixado pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) para 2026 é de R$ 1.611/MWh.
Rodrigo Sacchi, gerente Executivo de Preços, Modelos e Estudos Energéticos da CCEE, disse à Agência iNFRA que uma frente fria chegou à região Nordeste nesta quinta-feira, levando alta nebulosidade e impactando a geração eólica. Esse fator coincidiu com o momento de queda da geração solar e de aumento do consumo energético – influenciado pelo aumento das temperaturas nas demais regiões do país.
Esse cenário levou a geração eólica na noite de quinta a ficar cerca de 3 GW (gigawatts) menor na comparação com a de quarta-feira (14), de acordo com os dados da CCEE. Ao mesmo tempo, a previsão de carga para o horário de 19h foi 3 GW maior no SIN (Sistema Interligado Nacional).
Dessa forma, as hidrelétricas não foram suficientes para atender à demanda do sistema elétrico entre 17h e 22h, levando ao acionamento de térmicas com valores elevados. “Com esse aumento de consumo por conta do ar condicionado e a redução de geração eólica, a flexibilidade hidráulica não é suficiente para atender aquele pico [do sistema] do entardecer e o início da noite”, afirmou Sacchi.
O cenário levou a um aumento do CMO (Custo Marginal de Operação), que avalia o custo para atender à demanda do Sistema Interligado Nacional. Na quinta, o CMO passou de zero no período diurno para patamares superiores a R$ 1.500/MWh entre 18h e 20h, segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).
Tendência de repetição
O especialista da CCEE afirmou que esse movimento de oscilação maior do PLD é comum e esperado para essa época do ano, sob a influência do El Niño. Para ele, há “uma tendência” de repetição desse comportamento até o fim do período seco e recuperação dos reservatórios das hidrelétricas. Isso vai depender de as frentes frias chegarem ao Nordeste do país, ou não.
“Pode acontecer uma semana não, na outra semana sim. Na semana em que ocorrer, pode acontecer em um, dois ou três dias. Isso depende muito da passagem de frente fria alcançar a região Nordeste e impactar negativamente na geração eólica”, afirmou.
Médio e curto prazo
Sacchi afirma que os preços são impactados de formas diferentes no curto e no médio prazo. No médio prazo, o cenário de formação do preço considera com maior peso a hidrologia, que está positiva em boa parte do país, com as chuvas acima da média para esta época do ano no Sul e Sudeste. Isso ajuda a segurar a queda natural dos reservatórios e aumenta a flexibilidade hidrelétrica para atendimento na ponta.
“Isso faz com que do ponto de vista de médio prazo, a gente não precise colocar termoelétrica na base para gerar, para complementar a geração hidrelétrica. Por isso que na maior parte das horas do dia o preço está baixo”, explicou.
Já no curto prazo, o que mais influencia o comportamento dos preços são fatores como as temperaturas e a previsão de carga. “Quando há essas oscilações de temperatura em que a carga sobe, ou a passagem de uma frente fria, que também é algo típico dessa época do ano, atingindo a região Nordeste, isso implica diminuição de geração eólica. E aí a flexibilidade hidráulica não consegue sozinha [atender a demanda do pico], e é preciso lançar mão de termelétricas rápidas, que são mais caras”.
O gerente da CCEE também esclareceu que essa oscilação dos preços no curto prazo não tende a impactar o mercado cativo. Segundo ele, a definição das bandeiras tarifárias (que podem aumentar a conta de luz) leva em consideração o PLD médio mensal previsto para o mês seguinte.
Preparação
Já os agentes do mercado livre precisam se “preparar” para lidar com esse comportamento dos preços, na opinião de Rodrigo Sacchi. Ele afirmou que essas variações na operação e nos preços precisam ser entendidas pelos agentes para que eles possam se proteger utilizando diferentes ferramentas disponíveis. Segundo Sacchi, essa volatilidade é inerente à crescente penetração de fontes eólica, solar e MMGD (Micro e Minigeração Distribuída) no sistema.
“É importante para os agentes entenderem esses comportamentos, a tipificação, quais são as variáveis que influenciam isso, para eles conseguirem se proteger, quer seja com decisões operativas ou de comportamento de consumo, quer seja com heads contratuais, instrumentos financeiros ou modulação de contratos”, afirmou.
Embora antever episódios como o pico desta semana seja difícil, na avaliação do gerente da CCEE, o agente pode fazer “simulações, sinalizar possíveis contextos, dias ou semanas à frente” para conseguir se proteger.





