Amanda Pupo, da Agência iNFRA
A ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) deve aprovar nas próximas semanas a abertura da consulta pública da futura NR (Norma de Referência) sobre reúso da água. O normativo vai orientar um padrão para a reutilização dos efluentes sanitários tratados, referência que não existe atualmente. O grande potencial de reúso da água no país, praticamente inexplorado na comparação com outras nações, é uma das apostas para o Brasil enfrentar um futuro cenário alarmante de disponibilidade hídrica estimado pela agência.
Esse índice pode cair mais de 40% em regiões hidrográficas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste até 2040. Se de um lado a oferta da água será reduzida, do outro, a demanda só tende a aumentar, seja do setor produtivo ou do abastecimento humano.
Hoje, o Brasil tem oito milhões de hectares de área irrigada. O atlas da ANA aponta um crescimento de mais quatro milhões de hectares até 2030. No saneamento, as projeções futuras indicam um crescimento de 10,5% das vazões para o abastecimento urbano, alcançando 508,2 metros cúbicos por segundo em 2040.
“Eu posso falar isso [de aumento da demanda] para a irrigação, mas eu posso falar isso para o setor elétrico. O que que vai acontecer com os data centers? O hidrogênio verde? Tudo isso vai demandar mais água”, alerta o superintendente de Planos, Programas e Projetos da ANA, Nazareno Marques de Araújo, em entrevista à Agência iNFRA.
Folclore da água abundante
Araújo diz fazer a “pregação do fim do mundo” com objetivo didático e necessário para o país fugir do folclore de que tem e terá água em abundância disponível. Além de estimular mais reúso, medida que retira a pressão dos mananciais, a ANA trabalha em outras frentes: novas diretrizes para reduzir o índice de perda de água no saneamento, defesa da construção de novos reservatórios no Brasil, e incentivo da drenagem urbana, com norma de referência já publicada.
O superintendente cita ainda um trabalho constante de diálogo com o setor produtivo e companhias de saneamento para que essas empresas adotem medidas de proteção da água e de garantia da disponibilidade, como a recuperação de mananciais e planos de redundância.
“Temos feito muito o ‘discurso do fim do mundo’ com os prestadores de serviço e com as entidades reguladoras infranacionais. É simples: o negócio deles está em risco. Água é insumo. Uma mineradora sem água não tem minério”, exemplifica Araújo.
Produção de água
Dentro da ANA, ele também destaca o programa Produtor de Água. Criado em 2001, a iniciativa apoia projetos que contenham ações de conservação de recursos hídricos no meio rural com foco na segurança hídrica, visando a redução da erosão e do assoreamento de mananciais nessas localidades.
De sua sala na agência, em Brasília, o superintendente mostra orgulhoso o efeito prático do trabalho. Numa propriedade rural no Rio Grande do Sul que aderiu ao programa, as medidas adotadas evitaram que a enchente de 2024 destruísse o solo e a produção agrícola. Num terreno ao lado, sem esses cuidados, a chuva varreu a terra e comprometeu todo o riacho do terreno.
“Precisamos mudar a estratégia de gestão dos recursos hídricos e promoção do serviço de saneamento básico no Brasil. Isso envolve a ANA, envolve as companhias prestadoras de serviço, envolve os investidores, envolve o produtor rural. Porque todos vão ter que agir conjuntamente”, disse o superintendente, que entrou na ANA em 2006 por concurso público e desde então já ocupou diversos cargos dentro da reguladora – inclusive como diretor interino –, e assistiu a agência ganhar sua nova atribuição com a aprovação do marco legal do saneamento em 2020.
“Negar o impacto da mudança climática sobre a água hoje seria irresponsável por aqueles que tratam da estratégia da gestão hídrica e da gestão do saneamento do Brasil”, afirma.





