Marisete Dadald Pereira*
A Consulta Externa nº 003/2026 do Comitê Técnico PMO-PLD marca uma etapa importante na evolução do setor elétrico brasileiro. A iniciativa inaugura um novo ciclo de definição de prioridades para o aperfeiçoamento dos modelos computacionais utilizados no planejamento da operação, na programação eletroenergética e na formação do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças).
Instituído no âmbito da nova governança dos modelos computacionais, o CT PMO-PLD reúne instituições e agentes do setor com o propósito de tornar esse processo mais transparente, participativo e previsível. Nesse contexto, a Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica) apresentou suas contribuições à consulta, defendendo como princípio central que a evolução dos modelos seja orientada pela necessidade de representar, com crescente fidelidade, a realidade da operação do SIN (Sistema Interligado Nacional).
Essa discussão ocorre em um momento particularmente relevante. O setor elétrico também debate mudanças importantes no desenho de mercado, entre elas a ampliação do uso de ofertas dos agentes na formação de preços. Trata-se de uma evolução importante, cujos contornos dependerão das definições regulatórias a serem construídas. Até que esse novo desenho esteja efetivamente implementado, entretanto, os modelos computacionais continuarão exercendo papel central na formação dos preços. E, enquanto isso ocorrer, é fundamental que sejam capazes de refletir adequadamente as condições reais de operação do sistema.
Essa necessidade tornou-se ainda mais evidente diante das profundas transformações vividas pelo setor elétrico nos últimos anos. A expansão acelerada das fontes renováveis variáveis, as mudanças no perfil da demanda, o aumento das restrições operativas e a crescente necessidade de potência e flexibilidade tornaram a operação do SIN significativamente mais complexa.
Nesse novo contexto, não basta que os modelos representem adequadamente a produção de energia. É fundamental que sejam capazes de capturar os atributos que efetivamente têm valor para a operação do sistema, como capacidade, flexibilidade, armazenamento, resposta às rampas, reserva de potência e demais serviços necessários à segurança e à confiabilidade do SIN. O sistema mudou – e os instrumentos utilizados para representá-lo precisam acompanhar essa transformação.
Mais recentemente, essa agenda deixou de ser apenas uma necessidade técnica e passou a contar também com respaldo legal. A Lei nº 15.269/2025 estabeleceu que a operação do Sistema Interligado Nacional e a formação de preços considerem, entre outros aspectos, as restrições de defluência e de armazenamento dos reservatórios, as rampas de subida e descida das usinas hidrelétricas e termelétricas e a reserva de potência operativa.
A adequada representação desses atributos nos modelos computacionais torna-se, portanto, essencial não apenas para aumentar sua aderência à realidade operativa, mas também para assegurar a efetiva implementação das diretrizes estabelecidas pelo novo marco legal.
Quanto mais aderentes os modelos forem à operação real do sistema, mais consistentes serão os sinais econômicos produzidos. Isso se traduz em maior previsibilidade, redução das diferenças entre planejamento e operação, menor necessidade de intervenções posteriores, redução de distorções e encargos setoriais e, sobretudo, sinais mais adequados para orientar decisões de investimento.
Foi com essa perspectiva que a Abrage apresentou sua contribuição ao CT PMO-PLD. A associação defende que a priorização dos aprimoramentos considere, em primeiro lugar, o benefício sistêmico esperado de cada iniciativa, e não apenas seu grau de maturidade tecnológica. Defende também cronogramas de implementação mais arrojados, compatíveis com a velocidade das transformações em curso no setor, e elevada prioridade para os aprimoramentos necessários à implementação das diretrizes introduzidas pela Lei nº 15.269/2025.
O princípio é claro: a maturidade tecnológica deve orientar a estratégia e o ritmo de implementação de cada aprimoramento, mas não pode, isoladamente, determinar quais temas devem ser priorizados. Postergar evoluções estruturantes significa ampliar a distância entre a realidade do sistema elétrico e a capacidade dos modelos de representá-la – com consequências para a operação, para a formação de preços e para os sinais econômicos percebidos pelos agentes.
Por isso, o debate promovido pelo CT PMO-PLD vai muito além do aperfeiçoamento de ferramentas computacionais. Trata-se de assegurar coerência entre a transformação física do sistema, sua operação e os sinais econômicos que orientam o mercado e os investimentos.
O setor elétrico brasileiro está mudando rapidamente. Os modelos precisam mudar com ele. Afinal, enquanto os modelos formarem preços, eles precisam evoluir.
*Marisete Dadald Pereira é presidente-executiva da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica).
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


