Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
A fabricante de biodiesel Binatural planeja concluir a expansão de suas duas plantas, em Formosa (GO) e Simões Filho (BA), ainda no primeiro semestre de 2027, elevando a capacidade de produção anual da companhia de 600 milhões de litros para 700 milhões de litros, segundo o CEO André Lavor.
Já conhecido, o investimento total é de R$ 100 milhões, reunindo R$ 40 milhões em financiamento do Banco do Brasil, por meio do programa Eco Invest, e R$ 60 milhões de capital próprio. Inicialmente, a maior parte do capex seria destinada à unidade na Bahia, que tem maior capacidade, mas o plano de intervenções evoluiu de modo a aproximar o investimento nas duas plantas.
Com essa expansão, a Binatural busca se antecipar ao aumento da demanda nacional e global por biodiesel, seja para fazer face a novos usos, como no biobunker B100 (biocombustível para navios), seja por conta do aumento no teor de biodiesel no diesel.
No primeiro caso, a Binatural alega ter testado o produto com sucesso em motores de navio fabricados pela finlandesa Wärtsilä. Com relação ao chamado “mandato do biodiesel”, o percentual segue travado em 15% à espera dos testes definitivos do MME (Ministério de Minas e Energia), com previsão de término em fevereiro de 2027. Ambos os assuntos foram tratados na 7ª edição da Biodiesel Week, na última semana, em Brasília, e em visita de jornalistas à unidade da Binatural em Formosa (GO).
Atraso na mistura
O PNPB (Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel) está atrasado com relação ao previsto na Lei do Combustível do Futuro (14.993/2024), que previa um aumento escalonado de um ponto percentual por ano até alcançar 20% de biodiesel no diesel em 2030, podendo, após essa data, avançar até 25%. A falta de previsibilidade tem frustrado fabricantes que iniciaram investimentos para acompanhar uma demanda doméstica que não veio e, por isso, já têm capacidade ociosa.
“O pé no acelerador não foi conforme a gente previa. O capital não foge de risco ou volatilidade, mas foge sim de incertezas e imprevisibilidades”, diz Lavor em referência à falta de observância do calendário da mistura.
“Esse ano era para termos entrado no B16 em março e, logicamente, isso impacta nos planos de produção, investimento e suprimento de matérias-primas. Mas eu diria que essa é uma questão conjuntural dentro de uma mudança estrutural. A política energética continua vigente e a gente segue acreditando na evolução do setor”, continua o empresário.
Superada a formalidade dos testes de viabilidade, diz ele, existe uma possibilidade real de o governo ampliar o mandato do biodiesel diretamente de 15% para 17%, pela capacidade produtiva instalada no país, de mais de 15 bilhões de litros ao ano. Segundo ele, o setor já teria hoje capacidade de fazer frente ao B20.
Questionado sobre o impacto do aumento do mandato no preço do insumo, Lavor disse não haver relação direta: “O aumento da mistura não tem correlação com o preço, porque o preço do biodiesel é essencialmente precificado pelas matérias-primas e não necessariamente pela demanda. O balanço de oferta e demanda no Brasil hoje é muito confortável”, argumenta.
Expansão
Em Formosa, a Binatural planeja duplicar a planta atual, passando de 20 mil m² para 40 mil m², com novos sistemas em terreno contíguo, atrás da usina. Além disso, os investimentos envolvem novos procedimentos para aumento de rendimento, com conversão de subprodutos da operação em mais biodiesel, detalha o diretor industrial da Binatural, Luis Carlos da Costa Filho. O mesmo deve acontecer na unidade da Bahia.
Segundo o executivo, cada tonelada de óleo (soja, sebo bovino, óleo de cozinha) rende um pouco mais que isso de biodiesel, em função do acréscimo de metanol como matéria-prima. Mas, ao fim do processo, o resultado final é um leque de produtos com o seguinte rendimento: 82% de biodiesel; 12% de glicerina; até 5% de borra de biodiesel; e 1% de ácido graxo.
O plano da Binatural é reduzir em até 70% a geração de borra e, em um primeiro momento, transformar todo o ácido graxo em biodiesel por meio de processos químicos incrementais. Será mantido o percentual de glicerina, produto hoje quase totalmente exportado para a China. Em uma nova rodada de investimentos, a Binatural também pretende reaproveitar a borra para fabricar ainda mais biodiesel.
Eficiência
No setor de biodiesel brasileiro, de uma forma geral, entre 70% e 80% do óleo usado como matéria prima vem do esmagamento da soja. Na Binatural, explica a gerente de sustentabilidade da Binatural, Elaine Carvalho, esse percentual médio é de 60%, sendo o restante composto em sua maioria por gordura animal (sebo bovino ou suíno), mas também óleo de cozinha e óleo de algodão – este mais usado na Bahia.
O percentual de momento varia conforme a época do ano – quando o abate de bovinos aumenta, na segunda metade do ano, o percentual de sebo usado aumenta e o óleo de soja perde participação; durante a colheita da soja, seu óleo aumenta a distância para o sebo bovino nos tanques de matérias primas.
Outro diferencial é o blend (mistura) no combustível da caldeira: além de lenha de eucalipto, a Binatural usa casca de Baru, fruto típico do Cerrado, que tem poder calorífico bastante superior ao da madeira em si. Até poucos anos atrás, o material era descartado por agricultores locais, interessados somente na castanha interna do fruto e sua polpa, da qual extraem farinha rica em proteína.
Esse mix mais equilibrado de óleos e as inovações nos ajuda a usina de Formosa na nota NEEA (Nota de Eficiência Energética Ambiental), parâmetro medido dentro do programa RenovaBio, de 81,75%, um dos mais altos do país.
Na Bahia, o mesmo acontece, mas com coco de piaçava nas caldeiras e outros óleos, como de algodão e palma nos tanques. Segundo Elaine, resta preservada a lucratividade da operação mesmo com matérias-primas alternativas e advindas de coopertivas de agricultores familiares. “Não existe economia verde no vermelho. Tem que dar lucro”, resume a executiva.





