Lais Carregosa e Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA

A Eletronuclear deve ter um prejuízo acima do esperado no balanço financeiro de 2025 devido a inconsistências na folha de pagamento dos funcionários, que somam R$ 120 milhões a serem adicionados a um saldo negativo já esperado de R$ 20 milhões, afirmaram fontes à Agência iNFRA. A informação pegou os dirigentes da holding ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), que controla a Eletronuclear, de surpresa. Foi preciso adiar o fechamento dos resultados do ano passado e reconhecer o desfalque da estatal nuclear em suas contas. O prazo para publicação das demonstrações financeiras é dia 31 de março.
Ocorre que o prejuízo da Eletronuclear reflete negativamente nos lucros de suas acionistas, ENBPar e Axia (Ex-Eletrobras), de forma proporcional a suas participações. Segundo fontes, a provisão negativa tem o potencial de afetar o balanço da holding, que controla a participação da União na estatal nuclear. No entanto, no caso da Axia, os valores não devem ser significativos frente aos lucros altos da companhia. A empresa, inclusive, já vendeu a sua fatia na estatal para a Âmbar Energia, do grupo J&F. No entanto, a companhia dos irmãos Wesley e Joesley Batista ainda não assumiu oficialmente a posição.
As supostas inconsistências foram identificadas por uma auditoria externa sobre a folha de pagamentos, contratada pela Eletronuclear e realizada pela consultoria BDO, e se referem a uma série de rubricas, como horas extras e sobreaviso, que levaram a pagamentos realizados a menor aos funcionários da estatal.
Uma fonte da empresa diz que o relatório da auditoria apontou antecipadamente o rombo como um risco provável que afetaria as contas da Eletronuclear. No entanto, a Diretoria de Gestão Administrativa não teria dado transparência aos resultados.
Interlocutores, contudo, também apontam que teriam ocorrido falhas dentro do próprio relatório da BDO, que não considerou particularidades previstas no ACT (Acordo Coletivo de Trabalho). Desta forma, os valores ainda serão revisados e o montante deve ser reduzido em pelo menos 80% no próximo balanço trimestral, diz uma fonte da estatal.
O prejuízo de R$ 120 milhões vem em um momento de aperto financeiro da Eletronuclear, que tem que arcar com o custo de manutenção de suas usinas e com as obras paradas de Angra 3. A estatal conta com a decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) para fechar um financiamento junto ao mercado e retomar a construção da usina nuclear.
O que diz a Eletronuclear
À Agência iNFRA, a Eletronuclear disse que os apontamentos da auditoria “estão sendo analisados pelas instâncias competentes, em conformidade com a legislação e os normativos aplicáveis, e vêm sendo refletidos nas demonstrações financeiras conforme o avanço dos trabalhos, em linha com as práticas contábeis vigentes e o princípio da prudência”.
A estatal disse ainda que seu balanço financeiro foi aprovado pelas instâncias de governança e revisado por auditoria externa independente. “Eventuais ajustes poderão ser realizados, se necessário, após a conclusão dos trabalhos, observados os ritos técnicos e de governança aplicáveis”, disse.
A Eletronuclear informou também que a auditoria analisou a folha de pagamento entre julho de 2023 e junho de 2024. De acordo com a estatal, a atividade está inserida “no contexto regular das atividades de controle e aprimoramento da gestão, sendo prática normal e salutar no âmbito da governança corporativa, e tem como objetivo o fortalecimento dos mecanismos de integridade, governança e transparência da companhia”.
Sobre o envolvimento tardio da ENBPar, a empresa disse que “as comunicações com a holding são realizadas pelas instâncias competentes, em conformidade com os fluxos formais de governança e controle estabelecidos”.
‘Investigações’
O presidente do Stiepar (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica de Parati e Angra dos Reis), Cássio Lúcio Martins, disse à reportagem que, no momento, há duas frentes de investigação sobre o caso. Uma delas, decorrente de denúncia anônima no MPT (Ministério Público do Trabalho), investiga suposta fraude no processo de contratação da consultoria BDO para realização da auditoria da folha de pagamentos, que não teria seguido o rito imposto a processos licitatórios em empresas estatais, diz o sindicalista.
Na ata de reunião do Conselho de Administração da estatal realizada em 29 de dezembro de 2025 consta um comunicado para ciência acerca de “procedimento investigatório” na contratação da auditoria. Em nota, a Eletronuclear disse que o processo de contratação da BDO “foi conduzido em estrita observância à legislação vigente”.
Em outra frente, Cássio Martins diz que o sindicato emitiu notificação alertando a ENBPar e pedindo que o presidente da holding, Marlos Costa, apurasse a constatação de falhas no pagamento dos funcionários, com possível prejuízo de R$ 120 milhões. “Têm que ser averiguadas todas as informações, atas da diretoria executiva e atas do conselho”, afirmou.





