16/07/2026 | 08h00

Financiamentos para juro alto podem chegar a R$ 30 bi no BNDES em 2026

Foto: Domínio público

Amanda Pupo, da Agência iNFRA

A assimilação pelo mercado de que a taxa de juros vai persistir em patamar elevado globalmente somada à necessidade de grandes projetos de infraestrutura leiloados nos últimos anos fecharem seus quadros de financiamento deve fazer com que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lidere um grande volume de operações neste ano para o setor, especialmente no segundo semestre. 

A expectativa, na casa de R$ 30 bilhões, é voltada para os empréstimos realizados dentro do PEFI (Pacote de Estabilização de Funding para Infraestrutura) – que reúne instrumentos de financiamento construídos para contratação de investimentos em momentos de Selic alta. 

A perspectiva é compartilhada pelo superintendente de Infraestrutura do BNDES, Felipe Borim, em entrevista à Agência iNFRA. “Estamos com uma perspectiva de ter uma demanda bem grande esse ano. Algo na casa de mais de R$ 30 bilhões com os instrumentos do PEFI”, comentou Borim, segundo quem os instrumentos viabilizaram operações somadas em R$ 15 bilhões no ano passado. 

No início de 2026 havia uma expectativa de que o patamar de juros no mundo e no Brasil viveria um novo ciclo de cortes mais intenso. A guerra no Irã, deflagrada no final de fevereiro, mexeu com essas previsões e com o planejamento das empresas. No primeiro semestre, houve um fechamento de mercado, com aumento forte dos spreads e resgates mais intensos em fundos de infraestrutura, confluência que adiou o financiamento dos grandes projetos para a segunda metade do ano.

Com a persistência dos juros altos, as empresas terão de ir a mercado de qualquer forma para captar recursos e bancar os investimentos contratados, o que tornou os instrumentos elaborados pelo BNDES mais relevantes. “Como o ambiente de juros continua em nível elevado, esses mecanismos do PEFI vão ser muito importantes para as empresas fecharem o financiamento do funding completo dos projetos”, explicou Borim. 

Discutido e estruturado desde janeiro do ano passado – quando a taxa Selic estava em ciclo de alta e já figurava em 13,25% ao ano –, o PEFI conta com produtos para que o financiamento contratado em momento de juro alto não fique amarrado, no longo prazo, a esse custo maior. O Brasil alcançou seu patamar mais alto de juros deste ciclo no meio de 2025, quando a taxa definida pelo BC (Banco Central) foi a 15% ao ano, mantendo-se assim até março, quando a rodada de cortes começou. 

Agora, o nível está em 14,25%, ainda alto, e com indicações da autoridade monetária de que ela será bastante cautelosa com o ritmo de reduções. O cenário externo reforça essa prudência. Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve) está preocupado com a inflação e indicando que pode subir a taxa a depender do cenário que se desenrolar. 

Produtos
Um dos produtos do PEFI é o mini-perm, indicado para dar liquidez à fase inicial de projetos, permitindo que, no meio do empreendimento, o cliente consiga realavancar o empreendimento caso a taxa de juros caia. Os outros dois produtos são semelhantes. 

No custo flexível, no momento da liberação do recurso, o cliente pode optar pelo custo financeiro pactuado na contratação, referenciado na TLP (Taxa de Longo Prazo) do momento, ou o custo financeiro vigente no momento da liberação, referenciado em IPCA. Nesse caso, o tomador pode cancelar esse subcrédito, mas a troca será por outro do próprio BNDES. 

Já no instrumento de pré-anuência, o cancelamento do subcrédito dá lugar a uma nova emissão de debêntures. Com dois anos da contratação, a empresa poderá fazer essa operação para substituir integralmente ou parcialmente o crédito ainda não desembolsado, mas a substituição é limitada a 60% do valor total financiado. O valor mínimo de cada substituição deve ser equivalente a 40% do volume total passível de troca originalmente pactuado.

Elaborados para um momento específico, o prazo desses produtos vence no final deste ano – o custo flexível vale até 3 de abril de 2027. A renovação vai depender das condições de mercado. 

No ano passado, a recepção ao PEFI foi considerada bastante positiva, comentou Borim. Dos R$ 15 bilhões contratados, cerca de R$ 5 bilhões foram para aeroportos – concentrados no financiamento tomado pela Aena, concessionária de aeroportos, entre eles Congonhas (SP) –, aproximadamente R$ 8 bilhões para rodovias e por volta de R$ 2 bilhões para ferrovias. Para 2026, além desses setores, também devem entrar na carteira operações em saneamento e mobilidade. 

“Eu entendo que tem vários elementos que estão trazendo bastante demanda para o BNDES. É quase uma função anticíclica. Porque estamos dando financiamento que vai permitir à empresa fechar o funding do projeto. E ela vai poder ir a mercado daqui a pouco [quando o juro melhorar]”, disse o superintendente.

Debênture de infraestrutura
A debênture incentivada – que dá benefício tributário ao investidor pessoa física – se tornou um elemento essencial nas estruturações de financiamento do BNDES ao setor de infraestrutura. Mas tanto o banco como o governo querem trabalhar para que as operações, nos próximos anos, não fiquem tão dependentes desse título, o que passa por difundir o uso das debêntures de infraestrutura. 

Essa classe foi criada pela Lei 14.801, de 2024. O incentivo fiscal é dado ao emissor do papel e o objeto central é acessar o bolso de investidores institucionais. Embora a debênture incentivada continue tendo uma relevância grande para os financiamentos do setor, há um reconhecimento de que esse modelo pode atingir um limite em algum momento – tanto via mercado quanto pela regulamentação, uma vez que o fim da isenção já foi defendido dentro da equipe econômica. 

Diante disso, Borim disse que há consenso de que o setor de infraestrutura precisa chegar ao investidor institucional, o que pode ser feito pela nova classe de debênture. O superintendente do BNDES admitiu, contudo, que o momento ainda é desafiador para o título, já que atualmente a NTN-B – título do Tesouro indexado à inflação – está pagando quase 8%. “Aí o investidor institucional não vem para a infraestrutura porque o risco-retorno não compensa”, disse. 

Mais emissões este ano
Mas, quando esse cenário macroeconômico começar a mudar, o banco precisará estar pronto para atrair esse perfil de investidor. Assim, há um esforço do BNDES para ampliar as operações com debênture de infraestrutura, com expectativa de ainda neste ano liderar emissões com o papel para além do setor ferroviário – que estreou a captação dessa série no final do ano passado. 

“A gente está buscando ajudar os clientes a entender o mecanismo e a tentar encaixar nos projetos de uma maneira que a gente amplie a utilização do instrumento, que aí a gente começa a ter mais opção. Quando chegar no momento da taxa de juros começar a cair, esperamos que seja logo, você já vai ter isso de maneira mais orgânica no mercado”, comentou Borim, que visualiza emissões ainda neste ano para setores como rodovia, mobilidade e saneamento.

Segundo ele, o trabalho tem sido também de mostrar que a captação com debênture de infraestrutura pode funcionar em projetos com grande volume de investimento, compondo uma tranche do funding geral.

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