09/04/2026 | 08h00

Fundo Clima para trens a diesel vai acelerar investimentos, avalia ANTF

Foto: ANTF

Amanda Pupo, da Agência iNFRA

Com contratos sendo repactuados ou em processo de renovação num ambiente de juros altos e incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio, as operadoras de ferrovias terão oportunidade de acelerar projetos para ampliação de locomotivas e vagões a partir do crédito mais barato do Fundo Clima, instrumento federal para financiar a transição energética. Há potencial de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões serem emprestados para compra desses equipamentos neste ano.
 
A avaliação é feita pelo diretor-presidente da ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), Davi Barreto, após o governo autorizar que o material rodante do setor – mesmo aquele movido a diesel – seja financiado com recursos do fundo gerido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que neste ano tem orçamento de R$ 27 bilhões.

O aval foi dado pelo Comitê Gestor do fundo em março após o mercado ferroviário ter enfrentado resistências internas no governo, especialmente da ala ambientalista, para ter acesso a esse crédito “verde” de forma mais ampla. Em 2025, o financiamento ficou disponível apenas para projetos com locomotivas elétricas, híbridas e movidas a biodiesel B100, o que limitou o acesso das ferrovias ao Fundo Clima a um empréstimo, tomado pela Rumo. 

Para Barreto, o momento agora é de mostrar aos gestores do Fundo Clima que, havendo recurso disponível, o setor vai acessá-lo para investir. Em paralelo, o plano é avançar em pleitos para expandir mais as possibilidades de financiamento. Em última instância, o mercado quer aproveitar o crédito para ampliar a malha com projetos greenfield, mas há um reconhecimento de que alcançar esse aval é complexo, até pelo montante de investimentos sempre bilionários que esse tipo de construção exige. 

Na avaliação do presidente da ANTF, há espaço para avançar antes em áreas mais simples, como a incorporação de projetos de sinalização, que permitem que a capacidade da via seja melhor utilizada, a modernização de trechos e a retificação de traçados, por exemplo. Em todos os casos, é possível reduzir emissões em relação ao consumo da própria ferrovia e também do principal modo concorrente, o rodoviário.

“Até antes de chegar na expansão do greenfield, que a gente obviamente quer chegar e pode chegar no futuro, tem espaço também para outros pontos, como investimentos em resiliência”, disse Barreto à Agência iNFRA.

Setor em expansão
O presidente da ANTF lembrou ainda que não apenas as atuais operadoras associadas à entidade poderão tomar empréstimos do Fundo Clima para comprar material rodante, já que esses equipamentos também podem ser adquiridos pela categoria de usuário-investidor das ferrovias. 

Existe ainda uma expansão do setor que vai além dos contratos em vigor. Praticamente seis anos depois de o marco legal das ferrovias autorizar malhas privadas, o país observa os primeiros avanços concretos de projetos neste segmento, como é o caso do ramal ferroviário da papeleira Arauco em Mato Grosso do Sul. 

Pelas regras do Fundo Clima, um mesmo grupo econômico pode tomar um financiamento de no máximo R$ 500 milhões a cada doze meses. De acordo com Barreto, as condições chegam a ser mais vantajosas que o crédito captado via debênture incentivada ou pelo Finame, linha do BNDES voltada à aquisição de máquinas fabricadas no Brasil. O juro gira em torno de 6,5% ao ano, além da taxa cobrada pelo banco de fomento. 

Material rodante
O segmento de vagões e locomotivas foi autorizado dentro de áreas elegíveis do Fundo Clima – cujo comitê gestor é presidido pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente) – com base na taxonomia aprovada pelo governo recentemente, que considerou esses equipamentos como de “contribuição substancial para mitigação da mudança do clima”. A inclusão para o acesso ao financiamento foi negociada com o apoio do Ministério dos Transportes, do BNDES e da CNI (Confederação Nacional da Indústria). 

Barreto acredita que as operadoras ferroviárias poderão acessar a linha para fazer troca de parte do material rodante que está em funcionamento hoje, mas avalia que o uso dos recursos será voltado principalmente para expansão. “Existe uma agenda de expansão, de compra de material rodante atrelado aos contratos que estão sendo renovados, e também de novos contatos”, mencionou o diretor-presidente da ANTF. 

“O material rodante tem ciclo de vida muito longo. Quando você reduz a idade média trazendo material mais novo, [isso] se traduz em eficiência média maior para o sistema”, complementou Barreto.

Ele ainda avaliou que a novidade vai ajudar a manter os investimentos do setor em patamar alto no médio prazo. Depois de 2024 registrar o maior valor da série histórica, o feito é esperado também para este ano, com valores próximos a R$ 19 bilhões. “Foi um movimento excepcional do Fundo Clima”, disse. 

Nos últimos anos, as renovações de contratos ferroviários ajudaram a redimensionar os investimentos do setor – o que aconteceu com as ferrovias da Vale, Rumo e MRS –, valores impulsionados também por repactuações que o governo atual está tocando, o que já foi feito no caso da Rumo e da MRS e está próximo de ser fechado com a Vale. O Executivo ainda negocia a renovação do contrato da VLI na FCA (Ferrovia Centro-Atlântica), cujo contrato original vence neste ano. 

Ambiental
Além de oportunizar crédito mais barato, a decisão do Fundo Clima foi comemorada pelo setor do ponto de vista conceitual porque, segundo Barreto, a inclusão de material rodante no escopo de financiamentos verdes é um dos primeiros grandes movimentos do Brasil a reconhecer, a nível de governo, as externalidades positivas do modal ferroviário – que, embora emita menos gases poluentes, ainda é ressalvado por ambientalistas especialmente pelo impacto da construção de novas malhas. 

“A ferrovia como ela é hoje, movida a diesel, emite 85% menos de gás de efeito de estufa que o transporte rodoviário”, observou Barreto. 

Da forma como o acesso ao Fundo Clima estava organizado antes, o alcance a esse crédito era muito limitado. Embora iniciativas de eletrificação integral da malha e substituição total de locomotivas sejam relevantes do ponto de vista tecnológico e ambiental, ainda apresentam “limitações significativas relacionadas ao elevado volume de investimentos requeridos, à complexidade técnica e às restrições de oferta, o que reduz sua atratividade a curto e médio prazos”, concluiu estudo recente da ANTF sobre estratégias de descarbonização. 

“Já o uso de combustíveis renováveis surge como uma alternativa complementar, com menor capex inicial, mas ainda cercada de incertezas quanto a custos, manutenção e escala de suprimento”, apontou o documento.

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