Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
O Porto do Açu projeta um incremento entre 15 milhões e 20 milhões de toneladas para a sua movimentação anual após a entrada em operação da EF-118, projeto de ferrovia entre o Espírito Santo (Cariacica) e Rio de Janeiro (Nova Iguaçu) cujo traçado passa próximo ao porto, localizado em São João da Barra, no norte do estado. O empreendimento está em análise do TCU (Tribunal e Contas da União).
Segundo Eugênio Figueiredo, CEO do Porto do Açu, a expectativa é que essa licitação aconteça no segundo trimestre de 2026 e a construção dure cerca de quatro anos. O executivo falou em almoço com jornalistas, no Rio de Janeiro, ao lado de Rogerio Zampronha, presidente da Prumo Logística, empresa dona do porto e controlada pelo fundo americano EIG Global Energy Partners.
Hoje mais de 90% da carga movimentada no Porto do Açu é minério de ferro e, principalmente, petróleo produzido em alto mar e transbordado para exportação. O volume total movimentado em 2024, incluindo outros gêneros, somou cerca de 80 milhões de toneladas, e vai ficar entre 90 milhões e 100 milhões de toneladas este ano, diz Figueiredo.
Trem para gãos e minério
A construção da EF-118 aumentaria a escala de movimentação do porto, hoje limitado a rodovias. Os principais produtos que chegariam ao Açu pela estrada de ferro, diz Figueiredo, seriam grãos do Centro-Oeste, sobretudo milho e soja, e mais minério de ferro de Minas Gerais.
Nos vagões descarregados, poderiam ser embarcadas para outras regiões do país cargas de HBI (“hot briquetted iron” ou ferro-esponja). Usado nos alto-fornos de siderurgia para descarbonização, o material seria fabricado no local a partir de pelotas de ferro e gás-natural ou combustíveis limpos, como hidrogênio verde. Para isso há um MoU (Memorando de entendimento), assinado no fim de 2023 entre A Vale e o Porto do Açu.
Grãos
Segundo os executivos, grãos seriam dominantes no novo modal, que ampliaria em até quatro vezes a “mancha de captura” do porto no Centro-Oeste. O Açu já chegou a receber milho do Mato Grosso por caminhão, mas essas distâncias ainda são esporádicas para o modal rodoviário.
O Porto do Açu deve fechar 2025 com uma movimentação de 750 mil toneladas de grãos, o que inclui volumes de trigo importado. Para 2026, o objetivo é incrementar esse volume na casa dos dois dígitos percentuais. Hoje o porto movimenta grãos em um terminal multicargas, mas a expansão da atividade passa pela construção de um terminal dedicado ao gênero, a ser inaugurado no fim de 2026.
A ideia é se inserir cada vez mais na logística de grãos enquanto a EF-118 não chega. Segundo Zampronha, o padrão hoje no Brasil é escoar grãos pelos portos de Paranaguá, Santos e Vitória, onde se concentram os terminais próprios das grandes tradings. Mas em momentos de safra, as filas de espera nesses portos tem levado a maiores custos que são repassados aos produtores, o que na prática é uma janela de oportunidade para o Açu.
“Essas filas podem chegar a 30 dias, gerando um custo de US$ 20 mil a US$ 30 mil por dia. Então quando falamos em oferecer mais competitividade, não quer dizer necessariamente que a tarifa portuária vai ser mais barata, mas que o custo total da operação pode ser menor, justamente por não ter espera”, diz.
Minério
Enquanto a EF-118 não sai do papel, o Porto do Açu também espera receber mais minério de ferro por meio da ampliação de capacidade do mineroduto que vem de Conceição do Mato Dentro (MG) e desemboca no porto. A estrutura traz minério molhado, com 60% de ferro e 40% de água. A capacidade da estrutura da Anglo American, em que a Vale tem parte, saltaria de 26,5 milhões para 30 milhões de toneladas de minério de ferro molhado, diz Zampronha.
“A Vale comprou 15% do sistema Minas-Rio, que inclui a mina de Conceição do Mato Dentro. É um acordo pelo qual a Vale cede a mina de Serpentina, uma reserva minerária enorme, e assume 15% do complexo todo, o que vai levar a um incremento muito grande da produção, que deve fluir para o Porto do Açu”, disse.
Segundo Zampronha, uma possibilidade mais remota é a construção de um segundo mineroduto, investimento que não se justificaria pela iminência da EF-118. Além do mineroduto, o Açu ainda recebe minério de outras empresas vindo de Minas Gerais por caminhão.
Recentemente, em novembro, A Prumo Logística vendeu a participação de 50% na Ferroport, joint venture que mantinha com a mineradora Anglo American para operar um terminal de minério de ferro no porto do Açu. A participação foi comprada pela plataforma de investimentos 3Point2, com o apoio financeiro do banco BTG Pactual. Segundo Zampronha, foi um movimento de “reciclagem de capital” para outros investimentos.
“A Ferroport tem uma operação muito madura e eficiente, mas que não cresce mais. Então foge da lógica de fundos de capital privado, como são os nossos acionistas, manter esse tipo de ativo em carteira. Mas tem valor para outros tipos de fundo, como os fundos de pensão”, disse. Ele garantiu que nada muda na relação da Ferroport com o Porto, de quem a empresa aluga os terrenos.





