Resistência por problemas de motorização e revenda ainda é trava à ampliação dos biocombustíveis, avalia consultoria

Dimmi Amora, da Agência iNFRA

A resistência do setor de transportes à troca do diesel fóssil por combustíveis menos poluentes, como o biodiesel, deve-se aos problemas de desempenho nos motores dos veículos e também à falta de uma tecnologia que tenha um balanço adequado entre custos de aquisição, manutenção e revenda.

No transporte de carga, a tendência é mais forte que no de passageiros, e o fenômeno pode ser visto no Brasil e na Europa. Por isso, a transição do setor de transportes para o total de descarbonização será lenta, podendo passar de 2040 o período de transição e o carbono zero somente ser alcançado após a década de 2050.

A avaliação é de Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria, especializada em petróleo, gás e energia renovável, em paper avaliando a transição energética do setor. 

“A velocidade de substituição da motorização a diesel será determinada por três fatores: política de uso de biocombustíveis, metas de descarbonização por segmento e disponibilidade comercial de novas motorizações. A combinação destes fatores direcionará a expectativa de consumo de diesel no futuro”, informa o texto.

Sem vencedor
Com experiência no setor de transportes, D’Elia conversou com a Agência iNFRA sobre o trabalho e apontou que o transporte de carga ainda não conseguiu ter uma tecnologia “vencedora”, que garanta para as empresas de transporte uma troca segura dos caminhões a diesel fóssil, e isso é um dos principais fatores a inibir a transição.

Enquanto no transporte urbano de passageiros a Europa já conseguiu chegar a 25% de veículos que não emitem, esse número está em apenas 3% para o transporte de carga nessa região. Segundo ele, isso ocorre por dois fatores principais: o processo lento de abastecimento de outras tecnologias comparado ao diesel e a falta de um mercado secundário para esse tipo de motorização.

“Vender o caminhão depois é algo muito relevante para as empresas”, explicou o consultor.

Pauta do CNPE
No momento, há um intenso debate no Brasil entre o setor de produção de biodiesel e o de transportes sobre a antecipação da ampliação de percentual da mistura de biodiesel no diesel em dois anos. 

As empresas de transporte alegam que os motores não estão preparados para isso, o que reduz a potência e aumenta custos do transporte. Essa antecipação pode entrar na pauta da reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), prevista para hoje (19).

Em nota publicada em 18 de dezembro, a CNT (Confederação Nacional do Transporte) manifestou “preocupação com o risco de novo aumento do percentual de biodiesel de base éster ao diesel”.

“A Confederação entende que, para essa decisão, não deve ser considerada apenas a capacidade de produção do insumo no Brasil, mas as consequências desse aumento sobre o funcionamento dos veículos e os impactos econômico, ambiental e de segurança sobre toda a cadeia de transporte e logística do país”, disse. Acesse o posicionamento na íntegra aqui.

Limiações técnicas
D’Elia diz que o biodiesel atual tem de fato limitações técnicas para a mistura com o diesel fóssil. Segundo ele, há tecnologia para se produzir o chamado diesel verde, que poderia ser 100% substituído pelo diesel fóssil. Mas, segundo ele, esse diesel tem um custo de produção inicial alto pelo elevado investimento necessário das biorrefinarias.

“O preço final é mais caro. Mas é uma barreira que está sendo eventualmente superada no exterior com algum tipo de subsídio”, disse o diretor.

Redução no setor agrícola
No estudo, D’Elia aponta que os cenários são resilientes para manutenção do consumo de Diesel A por muitos anos. Mas ele vê um grande potencial de redução de consumo no setor agrícola, que é responsável por 15% do diesel consumido no país, que segundo ele pode dar uma resposta mais rápida. 

Para ele, é possível um caminho, adaptando-se as máquinas agrícolas para o uso do biometano, que é produzido a partir de processos em usinas de biomassa que estão necessariamente já próximas das áreas de produção agrícola e ainda há matéria prima em grande quantidade para ser usada no país.

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