03/03/2026 | 13h33  •  Atualização: 03/03/2026 | 13h45

Shell quer paridade com Cosan em capitalização da Raízen e defende unificação

Foto: Raizen/Divulgação

Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

O presidente da Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa, confirmou nesta terça-feira (3) informações que correm nos bastidores das tratativas para resgate da Raízen, fabricante de etanol e distribuidora de combustíveis que a petroleira mantém em sociedade com o grupo Cosan. A Shell, disse o executivo, espera que a Cosan e seus sócios, entre eles o BTG Pactual, entrem com os mesmos R$ 3,5 bilhões sinalizados pela petroleira no processo de recapitalização, e defendeu que os dois negócios da joint venture permaneçam unificados durante esse processo, só sendo eventualmente separados em empresas diferentes posteriormente.

Com uma dívida líquida que só cresce e chegou a R$ 55,3 bilhões, conforme balanço do último trimestre, a Raízen enfrenta dificuldades para lidar com a taxa de juros altas e contratempos nos fundamentos de seu próprio negócio, atravessado por colheitas de cana-de-açúcar mais fracas e apostas em tecnologias, como etanol de segunda geração e SAF (combustível de aviação sustentável, na sigla em inglês), que perderam espaço com o freio de arrumação da transição energética após a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia. Hoje, as empresas donas negociam uma reestruturação que passa pela venda de ativos, em curso, além de planos de injeção de capital, possível reorganização dos negócios e outras medidas capazes de sanear o negócio.

“A Shell já se comprometeu a colocar R$ 3,5 bilhões no processo de recapitalização da Raízen. A nossa expectativa era e continua sendo que o outro acionista (Cosan) colabore de maneira proporcional com a Shell. O princípio sempre foi de tentar uma paridade, para evitar a consolidação da dívida da Raízen no balanço da companhia, o que impactaria outros planos internacionais”, disse Pinto da Costa durante café da manhã com jornalistas, na sede da Shell, no Rio de Janeiro. De fato, a petroleira anglo-holandesa ainda não avançou com a injeção de capital de forma unilateral para não ver sua participação na Raízen aumentada, o que a obrigaria a consolidar a dívida da joint venture em seu balanço patrimonial.

Acordo é possível
O presidente da Shell garantiu que um acordo ainda é possível porque todas as partes estão sentadas à mesa buscando uma solução em reuniões “diárias”, mas disse que ainda não há um horizonte para que seja concluído. Ele confirmou, inclusive, a realização de uma reunião com o presidente Lula para tratar do assunto, uma vez que seria do maior interesse do governo que a Raízen consiga se reestruturar e manter-se produtiva. Ele, porém, preferiu não responder sobre a participação da Petrobras no episódio. A estatal chefiada por Magda Chambriard tem dito nos últimos anos que busca um negócio de etanol consolidado para se tornar sócia minoritária, sem nunca ter descartado a Raízen.

Sem citar a petroleira estatal, Pinto da Costa lembrou que, ao longo de 2025, a Raízen e seus sócios chegaram a contratar bancos de investimento para assessoramento em um processo de busca por novos sócios, que não avançou. “Infelizmente não conseguimos trazer um sócio novo para a Raízen e, por isso, as conversas estão muito ligadas aos sócios atuais”, afirmou.

Separação de negócios
O presidente da Shell foi direto ao abordar a tese do desmembramento da Raízen em duas frentes diferentes, uma de produção de etanol e outra de distribuição de combustíveis. “A Shell não se opõe a uma eventual quebra dos negócios [da Raízen], mas acredita que a sequência correta, mais plausível, é tentar recapitalizar a companhia de forma integrada primeiro e, depois que ela estiver estabilizada, considerar uma separação. E essa seria uma preferência também dos credores da companhia, não só nossa”, disse.

Questionado sobre o porquê dessa posição, ele disse que, devido ao grau de interdependência dos negócios, uma quebra antes da estabilização financeira, traria um risco muito alto para os dois negócios no futuro, além de confirmar que a maior parte da dívida recairia sobre o negócio de etanol, fragilizando-o ainda mais.

Diagnóstico
Sobre o grau de degradação financeira da joint venture, Pinto da Costa justificou se tratar da combinação de fatores que atingiram o negócio ao mesmo tempo, como uma tempestade perfeita. Entre eles, citou: uma “expansão acelerada da Raízen dentro e fora da linha do negócio”, que se combinou com fatores macroeconômicos desfavoráveis para a empresa, como a dinâmica dos preços do açúcar e do etanol; desaceleração da transição energética, com sobrevida aos combustíveis fósseis; e a coincidência da forte alavancagem para financiar expansão com o ciclo de alta dos juros. Em seguida, ele fez questão de marcar a separação total entre a governança da Raízen e da Shell, marcada por disciplina de capital e estratégia perene de avanço no upstream do óleo e gás.

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