Adriano Pires* e Pedro Rodrigues**
Um dos maiores equívocos do debate energético é tentar estabelecer uma hierarquia entre as diferentes fontes de energia. O Brasil não precisa escolher vencedores, mas sim aproveitar sua maior vantagem competitiva: uma das matrizes elétricas mais limpas e diversificadas do mundo. Não existe fonte de energia ruim. Ruim é faltar energia ou depender de uma energia cara, que reduz a competitividade da economia e penaliza os consumidores.
A força do setor elétrico brasileiro está na diversidade de sua matriz. Hidroelétricas, petróleo, gás natural, energia nuclear, biomassa, eólica e solar não competem entre si; são fontes complementares, cada uma com características próprias. Cabe ao planejamento energético integrá-las de forma eficiente, garantindo segurança do suprimento, confiabilidade e modicidade tarifária. Quando decisões técnicas cedem espaço a disputas entre tecnologias, o sistema perde eficiência e quem paga a conta é a sociedade.
O resultado da falta de uma visão integrada já pode ser observado. O país convive simultaneamente com uma das tarifas de eletricidade mais elevadas do mundo e com o crescimento do curtailment, desperdiçando energia renovável por limitações da rede elétrica. É um contrassenso descartar energia limpa e, poucas horas depois, recorrer ao despacho de usinas termoelétricas para atender ao pico de demanda. O desafio do setor elétrico deixou de ser apenas expandir a geração; passou a ser ampliar a flexibilidade ao sistema.
É nesse contexto que as baterias deixam de ser uma promessa tecnológica para se consolidarem como uma infraestrutura importante. Por décadas, a segurança energética era pautada somente na garantia de estoques de combustíveis e reservatórios cheios. Hoje, significa garantir energia disponível quando necessária. E essa é exatamente a função do armazenamento.
As baterias não geram eletricidade. Elas armazenam o excedente produzido, sobretudo pelas fontes solar e eólica, e o devolvem ao sistema nos horários de maior demanda. Funcionando de forma muito complementar às fontes renováveis, ampliando o aproveitamento dessa geração contribuindo para a redução dos custos operacionais. Além disso, respondem em milissegundos às oscilações da rede, prestando serviços ancilares que reforçam a estabilidade e a confiabilidade do SIN (Sistema Interligado Nacional).
Não por acaso, o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade com participação de sistemas de armazenamento, a ser realizado ainda em 2026, representa um marco. Mais do que contratar uma nova tecnologia, o país reconhece que a expansão das fontes renováveis exige soluções que agreguem flexibilidade e resiliência ao sistema elétrico. As baterias não substituem nenhuma fonte; tornam todas mais eficientes.
Os benefícios alcançam consumidores e empresas. Indústrias reduzem custos e aumentam a segurança operacional; hospitais e data centers elevam a confiabilidade do fornecimento; e consumidores passam a contar com maior resiliência diante de interrupções no serviço.
Poucos países reúnem as condições do Brasil: hidroelétricas, petróleo, gás, biomassa, biocombustíveis, abundância de sol e vento e, agora, a oportunidade de incorporar o armazenamento em larga escala. A vantagem competitiva nacional não está na predominância de uma única fonte, mas na capacidade de combinar diferentes recursos. Se os reservatórios das hidroelétricas simbolizaram a segurança energética do século XX, as baterias despontam como um dos pilares do século XXI. Em energia, diversidade não é um problema; é vantagem estratégica.
*Adriano Pires é sócio-fundador e diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura).
**Pedro Rodrigues é advogado, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura e sócio-fundador do CBIE Advisory.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


