30/10/2026 | 18h03

Em Londres, Ministério dos Transportes tem agenda com gigantes financeiros

Foto: Divulgação/ABCR

Luiz Araújo, da Agência iNFRA

O Ministério dos Transportes iniciou nesta sexta-feira (30) sua agenda em Londres com reuniões bilaterais com cinco grupos do mercado financeiro, entre eles gigantes como o banco suíço UBS, a Brookfield Asset Management e o HSBC. O foco da missão está no diálogo com grandes investidores para ampliar as fontes de financiamento para a carteira de projetos do próximo ano. De novos projetos a serem leiloados, estão previstos R$ 262,6 bilhões entre rodovias e ferrovias – fora a carteira já contratada, que soma mais de R$ 450 bilhões em Capex e Opex.

Além de UBS, Brookfield e HSBC, a delegação brasileira se reuniu nesta sexta com a Victory Hill Capital Partners e o Pátria Investimentos. Em entrevista à Agência iNFRA, o ministro dos Transportes, George Santoro, apontou que esse foi o primeiro encontro com o UBS realizado no exterior. A conversa com a gestora de investimentos Victory Hill também foi inédita. O HSBC, que já recebeu o ministro em Londres, ainda não investe em concessões brasileiras.

A pasta de transportes realizou diferentes missões internacionais nos últimos quatro anos, agenda que, segundo Santoro, contribuiu para o sucesso dos 25 leilões rodoviários na atual gestão. O ministro explicou que uma das vantagens é a negociação direta com os responsáveis pelas decisões de investimento, o que permite sanar dúvidas com maior efetividade. “Em 2023 e 2024, falamos com vários operadores que depois entraram nos leilões”, disse.

A carteira de 2027 reúne 29 empreendimentos, sendo 11 rodoviários e 18 ferroviários, com investimentos estimados em R$ 262,6 bilhões, dos quais cerca de R$ 160 bilhões em ferrovias. A esse volume somam-se os investimentos já contratados. “Já tem obra em andamento e mais obras vão acontecer e vão precisar captar recursos”, disse Santoro.

A agenda em Londres se estende pelos próximos dias. Na segunda-feira (2), estão previstas reuniões com a UKEF (UK Export Finance), Macquarie Capital, Crossrail International e Vinci Highways, além de um evento de apresentação da carteira de concessões para cerca de 100 investidores. Na terça-feira (3), a programação será encerrada com encontros com o Nista (órgão do governo britânico voltado à infraestrutura) e a gestora Vantage Infrastructure.

Demandas e questionamentos
Apesar das fortes oscilações do mercado financeiro brasileiro após o resultado da eleição presidencial, com alta do dólar e queda da bolsa, o ministro afirmou que os investidores consultados até agora não manifestaram preocupação com o cenário econômico ou político. Segundo ele, os grupos interessados em infraestrutura priorizam a segurança dos contratos, a estrutura dos editais e a rentabilidade dos projetos, considerando horizontes de investimento mais longos.

Na reunião com o HSBC, Santoro foi questionado sobre os mecanismos de proteção cambial previstos nas concessões. O ministro explicou que apresentou as coberturas disponíveis nos contratos e esclareceu a divisão dos riscos. Já o Pátria Investimentos perguntou se os aportes financeiros previstos nos projetos seriam depositados em fundos ou contas vinculadas. O ministério esclareceu que os recursos são destinados a contas dos próprios empreendimentos.

Para Santoro, as perguntas refletem o amadurecimento das modelagens brasileiras e a superação de críticas recorrentes em anos anteriores. “O que tínhamos de crítica, que foi resolvido em 2023, 2024 e 2025, já não aparece mais em 2026”, afirmou. Segundo o ministro, a clareza na divisão dos riscos permite aos financiadores avaliar a rentabilidade dos projetos, considerada atrativa, e incorporar às análises as exposições que permanecem sob responsabilidade dos investidores.

Interesse por ferrovias
Uma das principais percepções dos primeiros encontros foi o interesse dos investidores estrangeiros pelos projetos ferroviários, que concentraram mais perguntas do que as concessões rodoviárias. “Todo mundo perguntando mais de ferrovias do que de rodovias”, afirmou Santoro. Na avaliação do ministro, o interesse também tem estreita relação com a atratividade pela posição do Brasil como exportador de commodities, com horizonte de demandas cada vez maiores.

O ministro avalia que o apetite por ativos com retorno no longo prazo é especialmente importante para contornar parte do desafio de financiamento para ferrovias. Ele observou que os investidores que serão recebidos em Londres já estão familiarizados com instrumentos com retornos em horizonte mais longo, destacando que a construção das ferrovias brasileiras contou com capital estrangeiro até o século passado, especialmente britânico.

O programa de ferrovias hoje depende da decisão do TCU (Tribunal de Contas da União), que deve retomar em novembro o julgamento do processo que trata do uso das contas vinculadas em projetos de concessão. A engenharia permite que o governo direcione recursos para preencher o gap de viabilidade das ferrovias. Esse é um dos pontos mais sensíveis para as estruturações terem sucesso, além do financiamento – que no setor ferroviário é mais desafiador em razão do alto Capex demandado e pela demora na entrada de receitas no caso de malhas greenfield.

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