Marisa Wanzeller, Lais Carregosa e Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

A variação diária de geração de energia de fonte hidrelétrica aumentou 32% entre outubro de 2025 e de 2026, segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Essas usinas são acionadas para suprir, em um curto intervalo de tempo, o declínio da geração solar no fim da tarde e o aumento da demanda, o que leva as chamadas “rampas de geração” a superarem o patamar de 40 GW (gigawatts) em alguns dias.
Esse fenômeno é impulsionado pela expansão da MMGD (Micro e Minigeração Distribuída) solar, de acordo com o operador. Geralmente, as usinas eólicas compensam parte da redução solar. Mas, em dias sem vento, a pressão sobre as hidrelétricas aumenta, como descreveu uma fonte do setor.
Os dados mostram que essa alta variação de despacho hidrelétrico já se tornou rotineira. Entre 20 e 28 de outubro de 2025, a rampa diária média das hidrelétricas foi de 29,5 GW. No mesmo período em 2026, alcançou 39,1 GW – um aumento de 32%. “Rampas acima de 40 GW, raras em 2025, passaram a ser frequentes em 2026”, diz o ONS. De acordo com o operador, o pico de geração da MMGD subiu de 26 GW para 32,7 GW nesse intervalo.
Em 26 de outubro, por exemplo, a rampa de geração hidráulica alcançou 42,1 GW. Nesse dia, segundo o operador, a geração eólica encontrava-se da ordem de 5 GW, bem abaixo dos cerca de 15 GW a 20 GW habituais no período. A variação da geração hidráulica foi ainda maior no dia 18 de outubro, quando chegou a 45,6 GW. Considerando todo o ano de 2026 até o momento, o pico ocorreu em 17 de junho, quando a rampa foi de 48,9 GW. Essas variações normalmente ocorrem em um período de cerca de seis horas.
Durante o dia, a GD solar, que não é controlada pelo operador, obriga a redução do despacho de fontes centralizadas. Mas, ao anoitecer, as placas solares deixam de injetar energia na rede, o que demanda o acionamento de fontes como hidrelétricas e termelétricas.
A Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), que representa grandes hidrelétricas, destaca que essas variações evidenciam o “crescente serviço prestado pelas hidrelétricas de regularizar o desequilíbrio entre a demanda e a geração das demais fontes”, chamado de flexibilidade operativa.
A previsão do PEN (Plano de Operação Energética) 2026-2030, elaborado pelo ONS, é que a amplitude máxima da geração hidráulica chegue a 50 GW em 2030. Assim, a tendência é que a necessidade de flexibilidade operativa cresça e que as hidrelétricas continuem sendo predominantes no atendimento desse requisito, aponta o operador.
Reconhecimento econômico
O crescimento da rampa das hidrelétricas, no entanto, acaba tendo um custo para as próprias usinas. De acordo com a Abrage, as elevadas amplitudes exigidas na geração trazem desafios operacionais, técnicos e econômicos. Isso exige, por exemplo, aumento das despesas com manutenção.
“Devido ao aumento do número de paradas e partidas das unidades geradoras, ocorre maior desgaste dos equipamentos e, portanto, maiores custos operacionais”, disse a entidade. Esse cenário motiva o pleito do segmento para que haja reconhecimento econômico explícito pelos serviços de flexibilidade prestados pelas hidrelétricas.
Formação de preço
Agentes do segmento apontam que a Lei 15.269, da Reforma do Setor Elétrico, já trouxe algumas evoluções com aprimoramentos para a correta remuneração dos serviços de flexibilidade. O tema, no entanto, ainda deve ser regulamentado, explicou uma fonte.
A legislação incluiu nas diretrizes a serem observadas na operação do sistema e na comercialização de energia elétrica aspectos como: restrições de defluência e armazenamento dos reservatórios; restrições de rampas de subida e descida das usinas hidrelétricas e termelétricas; e reserva de potência.
Além disso, a Lei 15.269 diz que as operações no mercado de curto prazo devem considerar o MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) para mitigação do risco hidrológico; e o tratamento para os serviços ancilares de energia elétrica.
Para um especialista, o aprimoramento da formação dos preços de energia já cobriria, em parte, os custos extras das usinas para o atendimento de flexibilidade. A instituição do PLD Horário (Preço de Liquidação das Diferenças em base horária) – referência nas operações no mercado livre –, em 2021, foi um avanço nesse sentido, explica a fonte.





