Luiz Araújo, da Agência iNFRA*
O Brasil inaugurou nesta sexta-feira (12) o primeiro terminal de contêineres construído no país em 13 anos. O empreendimento, instalado no Complexo Industrial Portuário de Suape (PE), pode ampliar em até 55% a capacidade de movimentação de cargas conteinerizadas da região. A cerimônia foi marcada por apelos para que o trecho da Transnordestina que chegará ao porto saia do papel, considerado fundamental para concretizar as expectativas de ganhos logísticos para Suape.
O início das operações comerciais do terminal da APM Terminals, do grupo Maersk, está previsto para agosto, mas ainda depende da autorização final da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). O terminal entrará em operação com capacidade inicial para movimentar até 400 mil TEUs por ano. Após a conclusão da segunda etapa, prevista para 2028, esse volume deverá alcançar 600 mil TEUs anuais. Segundo a empresa, a área possui potencial para atingir até 1,3 milhão de TEUs com investimentos adicionais futuros.
Apesar da ampliação da capacidade portuária, a empresa e governos federal e estadual convergem no diagnóstico de que o principal gargalo logístico continua sendo a ausência da ligação ferroviária. O trecho que conectaria Salgueiro ao porto permanece sob análise do TCU (Tribunal de Contas da União), que questiona se os estudos de viabilidade utilizados para embasar a retomada da ferrovia continuam compatíveis com o cenário atual.
A decisão mais recente do tribunal, há um mês, impôs restrições à celebração de novos compromissos relacionados à retomada da obra até que as dúvidas apontadas sejam esclarecidas. O entendimento do TCU, contudo, não anula contratos já firmados nem determina o encerramento definitivo do empreendimento.
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), afirmou que o governo federal busca separar a contratação do primeiro lote já licitado das discussões relativas aos demais segmentos da ferrovia. Segundo ela, a obra “se justifica por si só” e possui demanda suficiente para viabilizar sua execução. A governadora acrescentou que o estado aguarda a análise dos embargos de declaração apresentados contra a decisão do relator do processo.
Novo terminal
O terminal da APM ocupa uma área de aproximadamente 495 mil metros quadrados, possui cais de 430 metros de extensão e profundidade de até 15,5 metros, permitindo a atracação de embarcações de grande porte. O investimento total supera R$ 2 bilhões, incluindo cerca de R$ 235 milhões destinados à aquisição de equipamentos eletrificados. Trata-se do primeiro terminal de contêineres totalmente eletrificado da América Latina.
O diretor de investimentos da APM Terminals no Brasil, Leonardo Levy, disse à Agência iNFRA que a companhia identificou uma demanda reprimida na região Nordeste. Segundo ele, a proximidade com clientes e embarcadores permite mapear gargalos que afetam a competitividade das cadeias de exportação e importação. “Entendemos a dor que os embarcadores têm quando a carga atrasa, e isso acontece no Brasil principalmente por falta de infraestrutura.”
Segundo Levy, além do investimento em Suape, a empresa também realiza aportes em terminais já existentes, como os de Pecém, Santos e Itapoá. Ele afirmou que a companhia segue interessada em novas oportunidades no mercado brasileiro, independentemente do modelo adotado. “Queremos mesmo é inaugurar mais terminais no país. Precisamos disso. E somos agnósticos em relação à forma de investir: pode ser em TUPs, concessões, PPPs ou parcerias privadas”, disse.
Demanda
O último terminal de contêineres totalmente novo inaugurado no país havia sido o da BTP (Brasil Terminal Portuário), no Porto de Santos (SP), em 2013. Desde então, o aumento da capacidade nacional ocorreu principalmente por meio de expansões, modernizações e ganhos operacionais em instalações já existentes.
A inauguração ocorre em um momento de crescente preocupação com a capacidade dos portos brasileiros para atender à expansão da movimentação de contêineres. Estudo publicado em abril pela consultoria Macroinfra apontou que a infraestrutura nacional poderá atingir seu limite operacional para esse tipo de carga até 2030, caso novos projetos e ampliações não avancem.
Com base em dados da ANTAQ referentes ao período entre 2015 e 2025, a pesquisa identificou sinais de saturação em alguns dos principais polos de movimentação de contêineres do país, incluindo Santos (SP), Paranaguá (PR), Itajaí/Navegantes (SC) e Itapoá (SC). A projeção é de que a demanda alcance 20,4 milhões de TEUs até 2030, consumindo praticamente toda a capacidade atualmente disponível, estimada em cerca de 23 milhões de TEUs.
Fora de Suape, o principal projeto ainda em discussão no setor é o Tecon 10, em Santos, concebido para movimentar até 3,5 milhões de TEUs por ano quando atingir sua capacidade plena. O empreendimento chegou a se aproximar da fase de leilão, mas permanece sem previsão exata para ser licitado em razão de divergências sobre o modelo concorrencial da licitação, especialmente quanto à possibilidade de participação de operadores que já atuam no porto.
*O repórter viajou a convite da APM Terminals, do grupo Maersk.






