Chuvas de dezembro nos reservatórios do setor elétrico foram piores que as de 2020, início da última crise do setor

Dimmi Amora, da Agência iNFRA

As chuvas no mês de dezembro de 2023 ficaram muito abaixo da média nos reservatórios usados para a produção de energia elétrica no país, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde ficam armazenados os maiores volumes de água para a produção de energia.

A situação, causada pelo fenômeno El Niño, é descrita como de preocupação e não há segurança de que os próximos meses chuvosos, janeiro a março, possam ser melhores que a média nessas regiões. Apesar do aumento da geração por outras fontes, a hidrelétrica ainda é a maior geradora do país e base para o funcionamento do sistema.  

Os dados do ONS (Operador Nacional do Sistema) apontam que ENA (Energia Natural Afluente) em dezembro de 2023 teve seu pior nível pelo menos desde 2010 no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que concentra 2/3 dos reservatórios do país. ENA é a medida do setor elétrico para a quantidade de água que chega aos reservatórios.

Nos últimos sete anos, o pior resultado tinha sido em 2020, com ENA Bruta em 64% da MLT (Média de Longo Termo), ou seja a média histórica de chuvas para o período. A melhor ENA  nesse período, em 2017, foi de 95%. Em dezembro de 2023, o mês terminou com 58% da MLT. A situação é ainda pior nos reservatórios do Nordeste e do Norte, onde essas médias ficaram em 18% e 27%, respectivamente.

As poucas chuvas de 2020/2021 nessas regiões levaram o governo anterior a adotar uma série de medidas emergenciais, devido ao risco do país ficar sem carga adequada no período seco, com possibilidade de apagões. Algumas dessas medidas até hoje são sentidas pelo consumidor, como a contratação emergencial de térmicas em valores que eram mais de cinco vezes o custo normal para a operação.

Reservatórios poupados
A diferença em relação a 2020/2021, no entanto, é que os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste foram poupados ao longo dos últimos anos e, com isso, chegaram ao período atual num nível ainda confortável. De acordo com dados do ONS, no dia 3 de janeiro de 2024, os reservatórios da região tinham 60,58% da capacidade. No fim do ano passado, por exemplo, eles estavam com 47%, mas subindo.

Nordeste e Norte também terminaram 2022 em situação confortável, com 59% e 52%, respectivamente. Mas o início de 2024 já aponta para uma situação pior, com 49% e 45% da capacidade, respectivamente, ambos com tendência de queda.

El Niño extremo
As chuvas abaixo da média histórica nas regiões acima da Sul são causadas pelo fenômeno El Niño, de aquecimento das águas do oceano Pacífico, que este ano foi classificado como de intensidade extrema. Ele aumenta as precipitações na região Sul e diminiu nas regiões mais acima.

O diretor-geral interino da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), Felipe Sampaio, contou em entrevista à Agência iNFRA que desde julho, quando o fenômeno climático se configurou, foi elaborado um plano de contigência. Uma das ações foi a emissão de alertas a todas as autoridades federais e estaduais sobre a necessidade de cuidados com o uso das águas.

Sampaio afirmou que, ao longo dos meses de 2023 os estudos foram apontando para um cenário “crítico”. Mas, segundo ele, se bem administrado, será possível manter os múltiplos usos da água até a próxima temporada de chuvas e então “avaliar se o El Niño vai arrefecer ou se intensificar”.

“A situação é de atenção. Temos que ter maturidade para atravessar esse próximo período chuvoso. Não tem falta de água, mas está abaixo das médias.  É preciso prudência”, alertou.

“Maturidade institucional”
Sampaio lembrou ainda que, em acordo com os representantes do setor elétrico, a agência vem mantendo desde 2021 restrições para o uso dos reservatórios para a produção de energia, fazendo com que eles se mantenham cheios. Segundo ele, essas restrições estão sendo cumpridas, o que tem colaborado para que a situação não se agrave. 

“Atingimos uma maturidade institucional grande que está colaborando para que possamos passar por esse período mais difícil”, afirmou Sampaio.

Janeiro ainda abaixo
A tendência para janeiro, segundo o PMO (Programa Mensal de Operação) do ONS da primeira semana do ano é que a ENA fique abaixo da MLT de janeiro em todas as regiões, inclusive na Sul, onde em novembro o volume de chuvas chegou a bater 502% acima da MLT.

No PMO divulgado nesta sexta-feira (5), o ONS estima uma pequena melhora para o mês de janeiro em relação à previsão inicial: “a revisão atual estima um pequeno avanço considerando as primeiras expectativas divulgadas”, diz o texto que reitera os altos níveis de armazenagem.

“A perspectiva para os níveis de Energia Armazenada (EAR) é de estabilidade: todos os subsistemas deverão encerrar janeiro de 2024 em patamares superiores a 50%. A maior EAR projetada segue a da região Sul (73,5%). Na sequência, estão o Sudeste/Centro-Oeste (64,6%), o Norte (64,1%) e o Nordeste (56,3%).”

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