22/09/2026 | 09h44  •  Atualização: 22/09/2026 | 09h48

Concorrência na AL é forte e esperamos ‘projetos ambiciosos’ no Brasil, diz CEO da Alstom

Foto: Amanda Pupo/Agência iNFRA

Amanda Pupo*, da Agência iNFRA

A indústria de equipamentos ferroviários enfrenta uma concorrência “muito forte” na América Latina, o que funciona como um bom incentivo para o mercado, desde que ocorra num “jogo equilibrado” entre todos os atores. A mensagem é de Martin Sion, CEO da Alstom, multinacional francesa fabricante de trens que mantém uma planta de produção no Brasil, em Taubaté (SP), e atualmente disputa com a chinesa CRRC a licitação para compra de dez trens do metrô de Salvador (BA).

À frente da companhia desde abril, Sion afirmou nesta segunda-feira (21) que a Alstom investiu muito nos últimos anos no Brasil para desenvolver uma capacidade local de produção e que a fabricante aguarda projetos “ambiciosos” no país para utilizar todo este potencial, lembrando, por sua vez, da competição que as indústrias baseadas na região enfrentam. A concorrência chinesa está muito mais presente em países da América do Sul e da África, por exemplo, do que na Europa, onde o arcabouço de regras e certificações tornam difícil a entrada da produção estrangeira.

“Agora, cabe um pouco ao Brasil decidir quais projetos deseja implementar. É verdade também que enfrentamos uma concorrência muito forte na América Latina. Mas a concorrência também é um bom incentivo para progredir, desde que seja em um campo de jogo equilibrado entre todos os atores, e isso é algo que estou acompanhando com muito cuidado”, afirmou o executivo a jornalistas durante entrevista coletiva realizada em Hennigsdorf, na Alemanha, onde fica uma das fábricas da Alstom.

Sion está no país para participar da Innotrans, principal feira internacional de tecnologia de transporte, especialmente ferroviário, que acontece em Berlim de terça-feira (22) a sexta-feira (25).

No Brasil, um dos principais projetos da Alstom é o fornecimento dos metrôs da Linha 6-Laranja, em São Paulo. E atualmente a companhia aguarda o resultado final da concorrência que irá definir o fornecedor para os trens do metrô em Salvador.

A licitação é um exemplo prático da competição citada por Sion. O primeiro edital foi cancelado após uma disputa que chegou à Justiça envolvendo regras de conteúdo local.

Naquele processo, a chinesa apresentou o menor preço, mas a Alstom questionou o resultado porque a CRRC não comprovou credenciamento junto ao Finame (Financiamento de Máquinas e Equipamentos), linha de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que exige uma porcentagem de conteúdo local na produção.

A licitação acabou cancelada e, a partir do novo edital, a Alstom apresentou um preço mais baixo que o da chinesa, que subiu sua proposta em 30% – R$ 632,7 milhões contra R$ 636,75 milhões. O resultado da concorrência, contudo, ainda precisa ser confirmado em outras etapas pelo governo baiano.

“Estamos lá [no Brasil] há muito tempo aguardando projetos ambiciosos para podermos executá-los localmente com as habilidades e competências que construímos no país”, afirmou Sion nesta segunda.

Sinalização e linha para exportação
A Alstom estreou sua produção no Brasil para fabricar o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) do Rio de Janeiro, projeto que completou dez anos em junho e foi pensado para os Jogos Olímpicos sediados no Brasil. Após a produção para o VLT, os demais projetos que a companhia conquistou na região foram voltados principalmente para linhas de metrô.

Além do negócio com a Linha 6, outro atual contrato da Alstom no Brasil é com a concessionária responsável pelas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda de São Paulo, voltado para modernização do sistema de sinalização das duas linhas. O acordo prevê a implementação do primeiro sistema ETCS (European Train Control System) ‘Nível 2’ na América Latina, com investimento de R$ 1 bilhão.

Neste nível, o sistema de sinalização permite maior eficiência operacional, com aumento da quantidade de trens em operação e otimização do tempo de viagem, por exemplo. No Brasil a Alstom também atende ao segmento ferroviário da Vale com sinalização.

A capacidade instalada da fábrica em Taubaté permitiu à companhia fechar contratos para exportação a outros países da América Latina nos últimos anos. Um deles é para o Chile, direcionado ao metrô de Santiago. Ao todo serão 37 trens entregues. Em escala global, a Alstom tem 88 mil funcionários espalhados em operações sediadas em mais de 60 países.

Direção remota
O CEO da Alstom também disse acreditar que o setor ferroviário está entrando em sua quarta grande revolução, agora a partir das tecnologias de inteligência artificial. “A primeira revolução foi a criação das ferrovias no século 19. A segunda foi quando eletrificamos. A terceira foi o trem de alta velocidade. E hoje, a quarta revolução tornará o setor ferroviário mais inteligente e, acima de tudo, mais eficiente. Esta revolução não é necessariamente sobre ir mais rápido. É sobre ajudar todo o sistema ferroviário a entregar mais. Mais capacidade, mais confiabilidade, mais resiliência e, acima de tudo, mais valor”, disse. Nos últimos três anos, a Alstom investiu cerca de 2 bilhões de euros em IA.

Em Hennigsdorf, a companhia apresentou a jornalistas seu primeiro trem com direção remota. A locomotiva foi dirigida remotamente a 20 quilômetros de distância, em Berlim, onde acontece a Innotrans. A distância pode ser maior e, nesse requisito, não há limitação. A operação exige apenas uma conexão de internet eficiente, 5G. O veículo ainda não está em operação externa, mas todos os testes já foram feitos e o produto está pronto para comercialização. É provável que a estreia aconteça para atender ao transporte público em Munique, cidade da Alemanha.

Foto: Amanda Pupo/Agência iNFRA

A direção remota foi desenvolvida, segundo a empresa, para atacar ineficiências na operação relacionadas à jornada do condutor. Sem que as atividades precisem aguardar, por exemplo, o deslocamento do motorista entre as locomotivas, o tempo de espera para a direção dos trens deve cair drasticamente, prevê a Alstom.

“Hoje o motorista precisa caminhar entre os trens, fazer testes (…) Podemos reduzir o tempo de espera e também dar maior conforto ao condutor”, disse Florian Kittelmann, chefe do programa de trens autônomos da Alstom.

*A jornalista viajou a Alemanha a convite da Alstom

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