Vinicius Werneck, da Agência iNFRA

Cerca de R$ 300 milhões teriam sido gastos pelo governo federal em dragagens emergenciais nas hidrovias da Amazônia nos últimos três anos. O problema, segundo armadores e operadores logísticos da região, é que boa parte dessas intervenções chegou tarde demais, quando a seca já havia produzido seus efeitos mais severos e os rios começavam a recuperar seus níveis. Agora, em ano de super El Niño, o setor teme a repetição desse roteiro.
A avaliação da Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem), que forneceu os dados, é que o país continua investindo em soluções corretivas para um problema previsível. A entidade calcula que aproximadamente R$ 100 milhões por ano foram destinados no último triênio às dragagens em rios estratégicos da Amazônia, mas sustenta que as intervenções têm chegado atrasadas para evitar os prejuízos que pretendem combater.
Apesar do receio com o cenário para 2026, DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e MPor (Ministério de Portos e Aeroportos) argumentam que tudo segue sob controle. Em nota, o departamento afirmou que “o planejamento atual está compatível com a evolução do cenário hidrológico”. Já o ministério informou que monitora “24 horas por dia, sete dias por semana” a situação por meio de um painel que subsidia o processo decisório.
“Junto ao DNIT, temos questionado reiteradamente o cronograma das dragagens necessárias, mas as respostas recebidas até o momento têm sido pouco objetivas e não esclarecem quando as intervenções serão efetivamente realizadas”, afirmou à Agência iNFRA o diretor-executivo da Abac, Luís Fernando Resano.
O departamento informou que em agosto as dragagens devem começar nos trechos Manaus-Itacoatiara, Coari-Codajás, Tabatinga-Benjamin Constant e Benjamin Constant-São Paulo de Olivença. De acordo com a Abac, os pontos mais críticos são o Tabocal e a Enseada do Madeira, localizados na região próxima a Manaus, no Rio Amazonas.
A Agência iNFRA também procurou a Capitania dos Portos, vinculada à Marinha do Brasil e responsável por estabelecer as restrições operacionais de navegação, mas não obteve resposta. A Abac informou que acompanha de perto as ações da força naval e informou que ela tem atuado “de forma preventiva, buscando viabilizar as operações sem comprometer a segurança da navegação”.
Super El Niño
Segundo o diretor-executivo da associação, a dragagem só produz resultados efetivos quando realizada preventivamente, antes da chegada da estiagem severa. “Quando executada após o período crítico, ela perde sua finalidade principal, que é garantir a navegabilidade durante os meses de menor nível dos rios”, completou.
A preocupação ganha força num momento em que os modelos climáticos apontam para a formação de um novo episódio de El Niño no Pacífico. O fenômeno costuma reduzir o volume de chuvas em parte da Amazônia e foi um dos fatores associados à seca histórica de 2023 e aos problemas logísticos enfrentados em 2024.
As previsões de piora do fenômeno ao longo do segundo semestre de 2026 acenderam um novo sinal de alerta. A Agência iNFRA mostrou na última semana que o setor elétrico, por exemplo, já movimenta agentes e entidades do segmento buscando se preparar para os eventuais impactos.
Impactos dos atrasos
A principal divergência entre governo e setor privado não está na necessidade das dragagens, mas no momento em que elas serão realizadas. A Abac defende que as intervenções estejam concluídas até agosto, prazo considerado crítico para evitar impactos mais severos durante a vazante e que consta na programação do DNIT. A entidade também pede a realização antecipada das batimetrias, levantamentos que identificam a profundidade dos rios e os pontos de assoreamento.
“Não estamos falando de um fenômeno inesperado. A seca amazônica acontece todos os anos e as previsões climáticas já indicam um cenário de atenção para o segundo semestre”, afirmou Resano. O DNIT informou que os levantamentos batimétricos da campanha 2026/2027 começaram em 15 de junho e serão concluídos na primeira quinzena de julho.
Segundo o departamento, o PADMA (Plano Anual de Dragagem e Manutenção Aquaviária), contratado em 2024 com vigência de cinco anos, prevê investimentos de R$ 465,7 milhões para assegurar a navegabilidade de corredores estratégicos da região.
Já o MPor garantiu que acompanha as condições hidrológicas em conjunto com a Casa Civil e com o grupo federal de monitoramento da seca. O ministério também informou que mantém coordenação contínua com o DNIT para definir as ações necessárias.
Impacto nos preços
Ainda assim, a memória da crise nos últimos anos mantém o setor em alerta, já que os impactos não seriam sentidos apenas por quem trabalha no segmento. Durante a seca de 2024, segundo a Abac, a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Manaus registrou aumento de aproximadamente 20% nos preços de diversos produtos.
Já para as empresas de cabotagem, caso sejam confirmadas profundidades menores para a navegação, haverá impacto direto na atividade e operação na região pela necessidade de diminuição de volume de carga conteinerizada nos navios.
“Mensalmente, entre 30 e 35 mil contêineres são embarcados ou desembarcados na região. Caso as embarcações não consigam chegar a Manaus em razão das restrições de navegabilidade, toda essa movimentação é impactada, afetando o abastecimento local e a logística nacional”, destacou a Abac em nota.





