06/07/2026 | 10h04

Eólicas perdem para carros híbridos liderança no consumo de terras raras

Foto: Domínio público

Rafael Bitencourt, da Agência iNFRA

A frota de veículos híbridos assumiu a liderança do consumo de terras raras no Brasil, ultrapassando a geração de energia eólica na demanda por esses insumos que são alvo de disputa geopolítica. A previsão é de que até 2050 os carros elétricos tomem a segunda posição, com o segmento eólico na terceira posição. Os dados são de estudo encomendado pelo MME (Ministério de Minas e Energia) e elaborado pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). 

Especialistas ouvidos pela Agência iNFRA enxergam essa movimentação como uma confirmação do cenário de transição energética. Embora as fontes renováveis sejam um importante vetor de crescimento do consumo de minerais críticos, a substituição do carro a combustão pelos eletrificados tem ampliado a pressão sobre a cadeia de suprimento desses minerais.

A presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias), Elbia Gannoum, considera “natural” que aconteça essa troca de posições no consumo de terras raras. Para ela, a explicação se deve à natureza técnica de cada bem.

“O veículo é um bem de consumo final com muito mais unidades produzidas do que unidades de turbina eólica. A despeito de ter unitariamente uma necessidade maior de terras raras, a turbina eólica é um ‘bem intermediário’, muito durável, com uma natureza econômica distinta. Esse é um fator central. Então, a demanda a partir dos veículos vai ser sempre maior”, disse a executiva.

Perda de liderança
Os dados levantados no estudo do MME indicam que o consumo brasileiro de terras raras magnéticas – os quatro principais elementos usados na fabricação dos ímãs permanentes, usados na fabricação de turbinas eólicas e motores elétricos – deverá mais que dobrar até 2050, passando das atuais 1,1 mil toneladas para 2,3 mil toneladas. Os quatro elementos principais considerados no estudo são: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb).

Os veículos híbridos, mostra o estudo, já haviam assumido a liderança no ranking em 2025 com o consumo de 359 t (toneladas) de terras raras magnéticas no Brasil. A geração eólica, que caiu para a segunda colocação, respondeu por 344 t no período, seguida dos carros elétricos com 200 t.

Essa tendência deverá se intensificar nas próximas décadas, aponta o estudo. Enquanto os híbridos devem se manter no topo da lista em 2050, com o consumo de 740 t, a projeção é de que os veículos elétricos atingirão o consumo de 710 t, superando as turbinas eólicas, que devem elevar a demanda para 501 t.

O estudo indica que um aerogerador médio, capaz de gerar 1 MW (megawatt), consome 160 kg de terras raras magnéticas, enquanto carros elétricos e híbridos demandam, em média, 2,5 kg por unidade.

Verticalização
Para o CEO da PSR Energy e ex-presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Luiz Barroso, a posição de destaque do Brasil, com a segunda maior reserva mundial de terras raras, abre possibilidades, mas, por si só, não é suficiente para desenvolver setores da economia. 

“A existência de reservas brasileiras de terras raras abre uma oportunidade industrial relevante, mas ela não se transforma automaticamente em cadeia produtiva. Para capturar valor, o Brasil precisaria ir além da mineração e desenvolver capacidade em separação, refino, ligas metálicas, ímãs permanentes e aplicações industriais”, disse o CEO da PSR.

Entre as aplicações industriais, Barroso citou os geradores eólicos ao lado de motores elétricos e veículos eletrificados. “Terras raras podem ser uma política industrial transversal, mais forte para veículos elétricos, motores industriais, defesa e eletrônica, e também útil para eólica, mas não como solução principal para retomar o crescimento dessa fonte”, disse, ao se referir ao desafio do setor eólico de voltar a crescer.

O CEO da Vestas para a América Latina, Eduardo Ricotta, disse que uma política industrial “bem estruturada” pode fortalecer a posição do Brasil na cadeia de valor da energia eólica.

“O país já possui competências importantes em fabricação de componentes, montagem, logística, operação e manutenção. Com uma estratégia nacional para minerais críticos e terras raras, é possível avançar em etapas de maior valor agregado, desde o processamento mineral até a fabricação de ligas metálicas, ímãs permanentes e componentes estratégicos para tecnologias limpas”, afirmou o executivo.

O marco legal dos minerais críticos – PL (Projeto de Lei) 2.780/2024 – aprovado na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado, prevê crédito fiscal de R$ 5 bilhões para desenvolver setores estratégicos com a verticalização da cadeia. A indústria da transição energética seria beneficiada se consumisse bens produzidos a partir dos minerais críticos extraídos e processados no país, de forma a beneficiar o setor de equipamentos eólicos, como aponta o estudo. 

‘Faseamento’
Uma das autoras do estudo sobre terras raras, Rafaela Guedes, ressalta que o Brasil pode avançar nas etapas subsequentes da cadeia, com processamento, separação e refino até a fabricação de produtos mais elaborados, se partir para uma estratégia de “faseamento” com avanço ao longo dos anos. Ela ressalta que esses minerais podem gerar oportunidades para a indústria de geração eólica, também em processo de fabricação de baterias.

“Todas essas são cadeias que ao longo do tempo a gente vai conseguir avançar e desenvolver. O mais importante é que não é ‘para ontem’. O primeiro passo realmente é chegar nos óxidos [fase inicial de beneficiamento das terras raras], e, dentro de ecossistema de inovação, a gente pode ir avançando em novas cadeias seletivamente”, afirmou Rafaela, que é pesquisadora sênior do Cebri.

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