22/06/2026 | 12h15  •  Atualização: 22/06/2026 | 12h18

Petrobras pode entrar em minerais críticos mirando baterias e fertilizantes

Foto: Petrobras/Divulgação

Gabriel Vasconcelos e Rafael Bitencourt, da Agência iNFRA

As discussões para uma entrada da Petrobras no ramo de minerais críticos e, possivelmente, nas “terras raras”, já existem dentro da estatal, mas em fase embrionária, apurou a Agência iNFRA. As frentes mais factíveis, dizem interlocutores, estão em minerais usados pela cadeia de fertilizantes, em que a empresa já atua, casos de potássio e fosfato, e minerais ligados à fabricação de baterias, como lítio, sódio e grafita. Neste caso, a disposição da Petrobras em participar do leilão de sistemas de baterias para armazenamento de energia seria o principal motivador de uma investida em análise.

Todas essas matérias-primas se encaixam no conceito mais amplo de minerais críticos, mas não fazem parte das chamadas “terras raras”, categoria que compreende 17 elementos químicos essenciais a novas tecnologias, o que também inclui transição energética. 

Formalmente, esse tipo de mineração não consta no atual Plano Estratégico da companhia e uma eventual inclusão no novo documento para o período 2027-2031, a ser divulgado em novembro, ainda não avançou de forma consequente dentro da diretoria colegiada nem sequer chegou ao Conselho de Administração. Ainda assim, segundo fontes, departamentos da estatal já analisam possibilidades alinhadas aos seus escopos atuais. Paralelamente, há interesse da presidente Magda Chambriard, que tem acompanhado movimentos de outras petroleiras nessa linha, caso da americana ExxonMobil.

Baterias
Segundo fontes, já existe diretriz clara dentro da Petrobras sobre avançar em armazenamento de energia por meio de baterias, seja para projetos internos ou iniciativas maiores, capazes de disputar o primeiro leilão voltado ao SIN (Sistema Interligado Nacional). A ideia, sobretudo no segundo caso, é fazê-lo por meio da joint venture Lightsource, em que a Petrobras é sócia da britânica BP, com 49,99% de participação. O caminho seria primeiro entrar no negócio e, depois, ampliar intimidade com essa tecnologia para avançar em diferentes etapas da cadeia. Tomada a decisão de entrar nesse mercado de baterias, fica a dúvida sobre o quanto do negócio pode ser verticalizado.  

“Estamos estudando toda cadeia, que começa com a produção do lítio, consolidado na tecnologia atual, ou do sódio, que está começando a despontar, e passando pelas etapas industriais em si. A ideia é avaliar se é válido ter uma atuação mais integrada. A ponta é o sistema de baterias, mas tem produção de células, montagem de pack e, antes disso, o braço extrativista das matérias-primas”, diz uma pessoa a par do assunto na Petrobras. 

Essa fonte lembra que há iniciativas em nível de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) no Cenpes (Centro de Pesquisa da Petrobras) e as discussões sobre a abrangência da atuação acontecem dentro da diretoria de Transição Energética e Sustentabilidade, chefiada por Angelica Laureano. “Ainda não há projeto, apenas uma discussão que está acontecendo ‘de trás para frente’, motivada por uma demanda, que é a intenção de participar do leilão de baterias”, reforça o interlocutor.

Grafita
Agência iNFRA também apurou que Magda Chambriard tem acompanhado com interesse os esforços da petroleira americana ExxonMobil para diversificar suas frentes de atuação, chegando aos minerais críticos pela produção de grafita sintética e ampliando atividade petroquímica. Essas duas agendas seriam caras à executiva, que além de olhar para baterias e outros minerais, busca ampliar a influência da Petrobras na Braskem por meio do redesenho societário em curso. O discurso, nesse caso, tem sido integrar mais a petroleira e a petroquímica em que tem participação relevante para “capturar sinergias”.

Sobre grafita, a matéria-prima tem aplicação em baterias de íon-lítio, células a combustível e outras indústrias avançadas. No primeiro caso, estão no centro do desenvolvimento de tecnologias de carregamento rápido e ampliação da autonomia de equipamentos. A Exxon já adquiriu empresas e centros de pesquisa voltados ao mineral e, no início de maio, inaugurou uma planta piloto de produção no Kentucky (EUA), sempre voltada ao equivalente sintético do mineral. Enquanto a grafita natural é extraída do subsolo, o material sintético pode ser produzido a partir de outros insumos, como coque de petróleo, subproduto sólido do refino do óleo bruto. 

No Brasil, ao contrário, qualquer empresa interessada nesse mineral poderia recorrer à matéria-prima na natureza. O país tem hoje a maior reserva de grafita do mundo, perfazendo 48% do total global (199,3 milhões de toneladas), segundo dados do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos). 

Em seguida, surge a China, com 19,5% das reservas mundiais (81 milhões de toneladas), embora seja disparadamente o maior produtor. Em 2024, dado mais recente do sumário mineral da ANM (Agência Nacional de Mineração), os chineses produziram 1,27 milhão de toneladas, concentrando 79,4% da produção global, enquanto o Brasil foi apenas o quinto maior produtor, com 52,2 mil toneladas (3,7% do volume total). O caso é mais um exemplo do potencial inexplorado do Brasil em minerais críticos.

Outras frentes
Além dos minerais com interesses mais pronunciados, frentes distantes dos atuais negócios da Petrobras não são descartadas por interlocutores da companhia. A própria presidente da estatal já sinalizou nesse sentido. Em 29 de maio, durante evento em Sergipe, ao lado do presidente Lula, Magda Chambriard disse que “gosta da ideia” de produzir minerais críticos, citando, além de potássio, o urânio. 

“Gosto da ideia de fazer urânio. Gosto da ideia de ser uma empresa de energia cada vez maior”, afirmou Magda na ocasião, indicando interesse em energia nuclear. No mesmo dia, ela gravou um vídeo, mais uma vez com Lula, afirmando que a Petrobras “vai entrar já, já” nos minerais críticos.

Burocracia
Caso a Petrobras opte por, de fato, abrir frente nos minerais críticos, interlocutores da companhia apontam uma questão burocrática tão importante quanto a definição de uma estratégia e a superação de barreiras operacionais: o arranjo necessário para obter o respaldo da governança interna da estatal. Segundo uma fonte, logo nas primeiras conversas sobre o assunto foi levantada a necessidade ou não de se mudar o estatuto da empresa. 

Magda já indicou publicamente a necessidade de uma mudança estatutária: “Não temos objeto social hoje para fazer mineração. Porque tínhamos a Petromisa, mas, no passado recente, esse objeto social deixou de integrar o objeto social da Petrobras”, disse em Sergipe, em referência à antiga subsidiária Petrobrás Mineração S.A., extinta em 1990. “Podemos retomar isso. Vai fazer parte de um ‘esforço Petrobras’, e depende de toda a sociedade brasileira realmente querer”, completou. 

Um ex-conselheiro de administração da estatal, no entanto, entende que bastaria o colegiado “dizer que ela pode fazer”, por meio de uma nova diretriz estratégica, para viabilizar o negócio dentro da estratégia para a transição energética já prevista em estatuto. Duas fontes ligadas ao Conselho atual, tanto da ala governista quanto dos acionistas minoritários, garantem que o assunto nunca chegou ao colegiado nem integra os materiais do novo Plano Estratégico 2027-2031. Ainda assim, entendem como relevante a discussão sobre o alcance do estatuto, com pelo menos uma delas defendendo a alteração como condição prévia.

Favorável à incursão da Petrobras em minerais críticos e terras raras, Jean Paul Prates, que comandou a estatal imediatamente antes de Magda, disse à Agência iNFRA que essa formalidade dependeria do escopo de atividades. O ponto central da discussão envolve o alcance do artigo 3º do Estatuto Social da Petrobras, aprovado em 2025 e cuja redação abarca todas as formas de energia, transição energética, economia de baixo carbono, captura, transporte e armazenamento de carbono, embora não mencione explicitamente mineração ou exploração mineral.

Segundo Prates, sem alteração estatutária, a Petrobras poderia financiar pesquisas, realizar levantamentos geológicos offshore, participar de consórcios tecnológicos, adquirir participações minoritárias em empresas, criar fundos de investimento voltados a minerais críticos, desenvolver tecnologias de processamento e reciclagem etc., sendo tudo enquadrado como atividade correlata à transição energética e à segurança energética nacional. 

Mas, continua o ex-presidente da estatal, se a Petrobras partisse para requerer direitos minerários, adquirir minas, explorar minérios, produzir terras raras, operar projetos de potássio e extrair minerais marinhos comercialmente, o risco jurídico aumentaria a ponto de exigir a mudança no estatuto. “Um acionista minoritário pode argumentar que a companhia estaria atuando fora de seu objeto principal. Nesse caso, a solução mais prudente seria alterar o Estatuto Social, mediante aprovação em Assembleia Geral”, diz Prates.

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