Beatriz Kawai, da Agência iNFRA
O setor de saneamento tem avançado positivamente em termos de regulação, colocando em prática os aprendizados de leilões passados, mas existe um momento de maior seletividade das empresas sobre novas alocações, como é o caso da Iguá Saneamento. Em entrevista à Agência iNFRA, o diretor-presidente da companhia, René Silva, destacou que os investimentos intensivos, a fim de cumprir com as metas de universalização, marcam essa fase do segmento, considerando que as companhias têm até 2033 para atenderem 99% da população com água potável e 90% de esgoto sanitário.
“Acho que é uma questão um pouco momentânea de cada um estar mais adequado dentro da sua estratégia, dado que é um setor de capital intensivo, mas que está realmente buscando criar essa resiliência e garantir que as curvas de universalização sejam atingidas”, disse Silva, ressaltando a estratégia da Iguá de análise de matriz de risco e alocação de capital classificada por ele como “cautelosa”, e com olhar para operações maiores ou com sinergia geográfica com as atuais concessões da empresa.
Em 2025, os investimentos somaram R$ 828,2 milhões. Atualmente a Iguá opera em 120 municípios, distribuídos em seis estados, e atende seis milhões de pessoas. A companhia opera três PPPs (Parcerias Público-Privadas) e seis concessões plenas. Entre elas, tem a operação no Rio de Janeiro (RJ), na qual a empresa ainda aguarda a resolução final do questionamento sobre o índice de perdas de água – uma vez que os números apresentados no projeto de concessão não corresponderam com as informações apuradas pela Iguá.
No horizonte das mudanças ocasionadas pela Reforma Tributária, o executivo defendeu a equiparação do saneamento com o setor de saúde, para que haja uma redução de 60% das alíquotas dos novos impostos. Esse pleito chegou a ser atendido pelo Senado, mas acabou excluído pela Câmara na votação do novo sistema tributário.
Silva reconheceu que as alterações tributárias poderão impactar de modo significativo a tarifa, mas ponderou que a discussão sobre o tema ainda está em andamento. “Não existe ainda uma conversa sobre qual o impacto que vai ter do ponto de vista do usuário final ou o impacto no concessionário do ponto de vista de reequilíbrio, é uma pauta ainda que está em discussão”, disse.
Na conversa, ele também tratou das ações da companhia para garantir resiliência hídrica no projeto de Sergipe e da estratégia de financiamento da empresa, que no mês passado anunciou ter recebido aporte de R$ 700 milhões de seus acionistas e captado R$ 1,04 bilhão em debêntures verdes, com o BID Invest (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Veja os principais trechos da entrevista:
Agência iNFRA: Quais são as perspectivas da Iguá neste momento?
René Silva: Recém adquirimos no ano passado operações e estamos num processo de recuperar todas as operações. Temos o Rio [de Janeiro] que é a maior do portfólio, em que a gente conseguiu fazer bastante investimento. Cuiabá é uma operação já bastante madura, já universalizada, e compõe o nosso portfólio das três grandes maiores operações. Tem a operação no estado do Paraná, com a Sanepar, e as operações no estado de São Paulo, então Atibaia, Andradina e Mirassol. Temos também a PPP de Alagoas que compõe todo esse portfólio. Dado o cenário, você tem um desafio dentro desse portfólio, de garantir não só eficiência operacional, que atualmente esses ativos podem ter, mas de disciplina financeira e geração de capital. [A missão] é obviamente fazer com que esse portfólio tenha disciplina financeira, tenha ganhos de capital, para garantir que os investimentos atinjam as curvas de universalização que a gente tem tentado.
Isso não significa que a gente não olha também as oportunidades de crescimento fora do nosso portfólio. Tenho o mandato de estabelecer e garantir que a nossa plataforma seja uma plataforma de investimento e saneamento dos nossos acionistas, que são acionistas de longuíssimo prazo, como o CPP (Canada Pension Plan), a AIMCo (Alberta Investment Management Corporation) e a BNDESPar, que é o braço de participação do BNDES. Isso compõe um portfólio de acionistas que veem a Iguá como uma plataforma de investimento aqui no Brasil. Quando você olha dentro dos números, na comparação de 2024 versus 2025, houve um aumento de 42,5% da receita líquida [ajustada]; aumento do Ebitda (resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização) [ajustado] em 44%.
Quais são essas novas oportunidades que a Iguá está de olho?
Dado todo esse cenário macroeconômico, olhamos com muito cuidado e observamos principalmente questões de operações maiores, que têm uma grande escala na nossa estratégia, ou até mesmo com sinergias geográficas dentro das operações que já temos. Essa é a nossa forma de olhar. Olhamos a matriz de risco mesmo. Obviamente, fazemos uma análise de cada um dos projetos, como é o risco de mercado, a relação de poder concedente e concessionário. Acho que o setor tem evoluído de uma forma positiva em termos de regulação. É possível perceber que os projetos recentes têm colocado mecanismos e aprendizados de outros leilões, isso é uma maturidade regulatória que tem conseguido aparecer. Mas a alocação de capital realmente já tem sido um “driver” de entendimento claro da matriz de risco e entendimento de como eu aloco esse capital de uma forma mais eficiente. Todos [os players] têm sido um pouco mais seletivos nesse processo.
Como a empresa tem concessões plenas e PPPs, vocês enxergam que alguma modelagem tem sido mais fácil de operar?
Temos desde concessão plena, concessões parciais em termos de água e esgoto, e também temos PPP. Acho que o objetivo principal de todas elas é garantir as curvas de universalização […]. Quando tem diferentes modelos regulatórios, é possível ver que as matrizes de riscos são diferentes. Numa PPP, você está lastreado numa visão de contraprestação, mas, ao mesmo tempo, você tem todas as regras de fazer a gestão do seu contrato para atingir aquelas curvas e compromissos. Quando você olha uma concessão plena, o desafio é aumentar o número de economias, é um outro estilo e outra visão de tratamento de matriz de risco. Mas, de novo, todas elas com a mesma visão de chegar dentro da universalização. Antes de ver diferença regulatória, diferença de modelos, tudo precisa casar com uma visão de como alocar capital para cumprir aquela visão de contrato.
Na operação do Rio de Janeiro, a Iguá já precisou resolver diferenças sobre tarifa social e segue em processo com o estado sobre índice de perdas de água. Há alguma perspectiva sobre a conclusão desse processo?
Tivemos uma arbitragem para questionar não só o ponto de vista de visão de tarifa social, como o início de curvas de perdas. Chegamos dentro de um acordo junto com o governo do estado do Rio de Janeiro, e a visão de tarifa social foi reconhecida e já aplicamos isso dentro das nossas tarifas. A única coisa que está pendente agora, em discussão, e tem avançado de uma forma bastante adequada, é a questão das perdas. Dentro do saneamento esses processos realmente acontecem. O mais importante, quando há divergência entre o início de curva e como que é a curva inicial de fato, é ter mecanismos claros de regulação para corrigir essas situações. Faz parte do processo natural de arbitragem, mas não tenho nenhuma expectativa que eu possa te passar aqui em relação a esse assunto.
Já a concessão em Sergipe acabou de completar um ano nas mãos da companhia. Como estão as operações?
É uma concessão do estado todo, são 74 municípios. Os índices iniciais eram de 90% de águas tratadas e 35% de esgoto. Só que a questão do Sergipe é muito sobre a intermitência de água. Esta questão da resiliência hídrica, diferente do Rio de Janeiro, diferente dos outros locais, o trabalho maior é em tecnologia, para garantir, não necessariamente uma expansão, mas uma resiliência hídrica, manutenção de todos os sistemas, garantir uma regularidade inteira das unidades de abastecimento. Temos conseguido avançar, sim, a maior parte do avanço expressivo de 47,5% da receita líquida é direcionada pela expansão de conexões e de economias do Sergipe. A operação está andando para garantir e resolver o problema histórico de intermitência de água.
Quais são as medidas implementadas?
A operação passa desde manutenção da rede atual até mesmo a instalação de reservatórios que têm capacidade para poder garantir que esse abastecimento contínuo aconteça. Se os dutos estão velhos e não funcionando de uma forma adequada, eu tenho perdas de água e preciso de maior pressão para a água chegar no usuário final. Então, o que normalmente é feito? É um trabalho de setorização. Eu pego esses ramais hidráulicos e os setorizo, faço macromedições, olho pressões, olho fluxo hidráulico e eu vou regulando isso de uma forma para reduzir perdas, garantir que eu não tenha mais intermitência, e colocando reservatórios para que eu consiga não necessariamente trabalhar com pressões muito mais elevadas. Por isso que ele é muito intensivo de capital. Depois vai trabalhando os ganhos de eficiência, que passam por um centro de controle, com tecnologias adequadas, até mesmo utilização de mecanismos mais avançados, como por exemplo a inteligência artificial para entender onde estão as perdas e trabalhar de uma forma mais preventiva.
O setor de saneamento prevê uma elevação da carga tributária após a aprovação da reforma de impostos sobre o consumo. Quais são os planos para mitigar os encargos previstos, que devem ser bem significativos?
Reforma tributária é uma pauta setorial, eu acho que a grande visão ou a grande demanda do nosso setor de saneamento é garantir um tratamento igualitário com a visão de saúde [setor que tem redução de 60% no novo IVA]. Muitas das doenças podem ser causadas por questões hídricas, água não totalmente tratada, deficiência no esgotamento sanitário, quando há saneamento básico dentro de determinadas regiões. E, obviamente, a reforma tarifária tem impactos para o usuário final. Quando você olha para ele, da forma como está hoje, e cumpre todas as etapas que são previstas tanto para IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) como CBS (Contribuição Social sobre Bens e Serviços), se essa equalização com saúde não acontece, terá um impacto significativo dentro de uma visão de tarifa no usuário final.
E qual será a estratégia a partir desse momento, se nada for feito?
Nesse contexto, a agência reguladora vai ter que se posicionar de uma forma mais direta e específica para cada visão de contrato. São discussões muito particulares com cada uma das agências. Dado que esse processo ainda está em andamento, não existe ainda uma conversa sobre qual o impacto que vai ter do ponto de vista do usuário final ou o impacto no concessionário do ponto de vista de reequilíbrio. É uma pauta ainda que está em discussão.
A empresa vê esse tipo de discussão e reequilíbrios indo para um ambiente de arbitragem?
Eu volto muito mais numa linha de que é uma pauta setorial. O setor, de alguma forma, vai se articular, por isso que temos uma visão das associações de que essa articulação afeta todas as companhias. Não dá para antecipar movimentos agora. Você tem os planos que vão acontecendo ao longo do tempo. Acho que isso será tratado dentro desses momentos adequados.
Como está o processo de implementação da tarifa social nas operações da Iguá?
É um processo de pauta positiva. Quando você olha a tarifa social, é uma forma de conseguir garantir serviço de saneamento básico igualitário para todo mundo, ou seja, que realmente atinja e cumpra seu propósito de levar água tratada e esgotamento sanitário à população.
A empresa enxerga algum desafio na implementação?
Não temos visto nenhuma questão. A questão dos cadastros e garantias de cumprir com as regras é o princípio básico para implantar a tarifa social: ver se o cadastro está certo, fazer a visita no local da pessoa, conseguir cadastrar dentro da tarifa social e receber o benefício para frente. A questão é mais operacional do que uma dificuldade sistêmica, crônica ou qualquer coisa mais nesse sentido.
No mês passado a Iguá anunciou que recebeu aporte de R$ 700 milhões de seus acionistas e captou R$ 1,04 bilhão em debêntures verdes, com o BID Invest (Banco Interamericano de Desenvolvimento), para a Iguá-Sergipe. Como isso se coloca dentro da estratégia de financiamento da empresa?
O aporte de R$ 700 milhões veio no momento em que o acionista mostra confiança nas estratégias de longo prazo da própria companhia e nos ajuda a acelerar nossos investimentos. Acho que esse é um “milestone” importante, dado até todo o cenário de mercado. Ter acionistas aportando capital na companhia é um “milestone” importante de confiança na estratégia da companhia. E quanto ao BID Invest, tivemos R$ 1,04 bilhão de compras de debêntures dentro da Iguá-Sergipe. Esse projeto de debêntures verdes realmente traz um aspecto bastante relevante para a companhia, num momento também de estruturação de capital de Sergipe. A gente faz esse BID Invest dentro da estrutura de capital já desenhada, porque a estrutura financeira de Sergipe foi inicialmente desenhada com um empréstimo-ponte, mas agora começamos a criar todas as estruturas de capital de longo prazo e o BID Invest é o primeiro passo importante.
Como a Iguá analisa o atual nível de maturidade do setor de saneamento?
Hoje o setor tem investimentos de R$ 20 bilhões ao ano para atingir as curvas dentro de todos os cenários que estão divulgados, mas [a universalização] exigirá que o investimento por ano dobre. Então, entendo que é uma questão um pouco momentânea de cada um estar mais adequado dentro da sua estratégia, dado que é um setor de capital intensivo, mas que está realmente buscando criar essa resiliência e garantir que as curvas de universalização sejam atingidas. Nossa estratégia da Iguá é realmente olhar a matriz de risco e alocação de capital com cuidado, até mesmo porque o portfólio que a gente tem já possibilita um crescimento importante. Então, realmente, falando da Iguá, hoje o nosso momento é ter todo esse cuidado de entendimento do setor. Entender que o setor realmente precisa crescer, ele vai crescer, e está pronto quando essa oportunidade fizer sentido pra gente. Esse é o principal elemento que estamos olhando dentro desse momento.





