28/07/2026 | 11h30  •  Atualização: 28/07/2026 | 11h35

Setor elétrico e data centers vivem descompasso em prazos de obras

Foto: Domínio público

Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA

Os investidores apontam o descompasso entre os prazos do setor de energia e a velocidade exigida pela indústria digital como um dos principais entraves ao desenvolvimento dos data centers no Brasil. Obras de reforço na transmissão podem levar de cinco a sete anos para serem concluídas, enquanto um data center fica pronto em cerca de dois a dois anos e meio.

Segundo o vice-presidente da Scala Data Centers, Luciano Fialho, o Brasil trata o investimento digital como qualquer outro, “mas ele tem uma velocidade que o setor de energia não acompanha”. “Tudo no setor de energia são muitos anos. São de cinco a sete anos para se fazer uma conexão de linha de transmissão. O data center vai para o mercado com 24 meses. Se eu tiver que esperar isso, os data centers vão para outro lugar do mundo, não vão ficar aqui”, disse Fialho.

O executivo defende que o Brasil estruture uma política pública transversal para tratar dos temas da infraestrutura digital. “A agenda digital tem que estar conversando com a agenda do setor elétrico, que por sua vez tem que conversar com a agenda tributária, que tem que conversar com a agenda de tratamento de dados”, afirmou.

Segundo especialistas ouvidos pela Agência iNFRA, o Brasil está perdendo a chance de atrair e fomentar a indústria de data centers por uma série de gargalos, dentre eles, o acesso à rede de transmissão. 

Uma fonte do setor elétrico diz que o fomento de grandes cargas no país foi visto em um primeiro momento como uma oportunidade para manter investimentos em geração renovável, uma vez que o país enfrenta os desafios causados pelo excesso de energia no sistema, como o curtailment (cortes de geração). No entanto, a iniciativa esbarrou em outro contratempo. “Embora a gente enfrente um contexto de redes congestionadas por injeção [de energia], a questão da retirada, a demanda, também passou a ser um gargalo”, explicou.

A percepção de agentes e especialistas é que o planejamento setorial não estava atento à chegada de “cargas disruptivas”. Diante desse cenário, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) tem apresentado soluções estruturais, que permitirão maior conexão de eletrointensivos, com conclusão prevista apenas em 2032, prazo considerado “excessivamente longo”, aponta a fonte. “Data centers, especialmente os voltados para exportação [de dados], vão buscar países com infraestrutura mais ágil”, disse. Até lá, o operador estaria apresentando “soluções-ponte”, que disponibilizam um pouco mais de espaço para conexão na rede, mas não resolvem o problema no longo prazo. 

Pnast
Em meio ao crescente interesse de grandes consumidores no acesso à rede, o MME (Ministério de Minas e Energia) publicou em dezembro de 2025 decreto que institui a Pnast (Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão). Se por um lado ela afasta os especuladores, por outro, onera o processo para agentes sérios e interessados em estabelecer seus data centers no país, comentam especialistas e executivos. 

Antes da política de acesso, os pedidos de conexão à rede eram analisados por ordem de solicitação e o ONS emitia parecer de acesso conforme a disponibilidade da rede. Não havia necessidade de aporte de garantia financeira nessa etapa inicial. Com a instituição da Pnast, a conexão é organizada por um processo competitivo que ocorre nas Temporadas de Acesso, e exige garantias financeiras prévias, de forma a evitar a reserva de capacidade por agentes interessados em vendê-la posteriormente. 

No entanto, essa medida acabou gerando um custo extra para empreendedores que ainda dependem de definições sobre os seus projetos. “Ela resolveu um problema do setor elétrico, mas não resolveu o problema do setor da infraestrutura digital. Tinham vários pedidos, não tinha ordem nenhuma, aí ela foi lá e botou ordem no pedido, mas o acesso não ficou mais rápido, não ficou mais fácil”, disse Luciano Fialho, da Scala Data Centers. 

“Agora eu tenho que dar garantias antes de eu ter o projeto. Antes de falar que eu tenho o direito de me conectar, ele [ONS] está me pedindo uma garantia milionária. Então, para poder afastar os aventureiros, criou-se uma garantia que, na verdade, está afastando os aventureiros e os empreendedores sérios”, afirmou.

João Carlos Mello, CEO da Thymos, avalia que, com a Pnast nos moldes atuais, o Brasil está colocando “barreiras” antes mesmo de criar condições para receber os data centers no país ao instituir garantias financeiras “exageradas”. Segundo ele, restrições como essas direcionarão os investimentos na América Latina para outros países, como Chile e Argentina. “A gente vai perder um espaço interessante de desenvolvimento tecnológico no Brasil”, disse o especialista.

Projetos maduros
Para João Mello, seria importante uma regulação “mais flexível” para a política de acesso a fim de não afastar os investimentos. A solução passaria por uma análise dos agentes que solicitam a conexão. Isso poderia evitar a cobrança de garantias milionárias e, ainda assim, afastar especuladores. 

“Tinha gente que estava só especulando, então endureceram o jogo. Tem muito especulador nesse assunto, pensando em ganhar a posição e depois vender para terceiro. Mas poderia ser fácil você filtrar isso analisando se quem está pedindo é realmente do setor de data center, se tem maturidade tecnológica”, explica. Outro ponto essencial seria alinhar o planejamento à política de fomento de data centers.

Para um agente do setor elétrico, a maturidade e a viabilidade do projeto também deveriam ser consideradas em um processo competitivo para acesso de “algo escasso”, como descreve o espaço na rede. Esse agente pondera, contudo, que por mais que a Pnast aumente os custos do projeto, por outro lado é importante reconhecer que “filtra” quem realmente está disposto e tem viabilidade para investir. Outra medida que integraria uma solução é “limpar a base” com mais mecanismos como o Dia do Perdão, que dão anistia a agentes que queiram desistir de seus contratos para projetos que não se viabilizarão.

Custos tributários
Além das questões relativas ao setor elétrico, o presidente-executivo da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), Affonso Nina, destaca que o principal gargalo para o avanço dos data centers no Brasil é a elevada carga tributária sobre equipamentos de processamento. Ele aponta que o país só se tornará um polo de processamento de dados ao solucionar essa questão. Segundo o executivo, o custo de instalar um data center no Brasil hoje é entre 20% e 25% maior que em outros países devido aos tributos. 

Em uma frente, os agentes aguardam a aprovação do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) no Senado pelo PL (Projeto de Lei) 278/2026. Em outra, articulam uma resolução no Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) para reduzir o ICMS em até 90% sobre esses equipamentos, diz Nina.

“Se o Redata passar e essa proposta do Confaz passar, a carga tributária cai e o Brasil fica competitivo e aí os investimentos virão em maior quantidade. Hoje, com a realidade que a gente tem, esses investimentos vêm em um nível muito menor, que a gente vai continuar sem autonomia tecnológica e importando processamento de dados”, afirma.

Para ele, o Brasil tem todas as outras condições para ser um player importante nesse mercado, como energia limpa e renovável, sistema elétrico interligado e robusto, além de espaços disponíveis para instalação dos empreendimentos.

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