Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
Representantes das duas maiores vencedores do LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência), Petrobras e Eneva, e a transportadora de gás TAG defenderam nesta quarta-feira (20) a validade do certame e sua importância estratégica não só para o sistema elétrico, mas também para o desenvolvimento do mercado de gás natural do país, cujo tamanho mais que dobrará com a entrada da demanda de pico dos projetos termelétricos aprovados.
O resultado do leilão está sob escrutínio da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e do TCU (Tribunal de Contas da União), que sinalizou ontem com a inadequação de parâmetros utilizados e possível suspensão da adjudicação e homologação dos contratos de termelétricas.
Um dia depois disso, durante painel da conferência Argus Rio Crude, que acontece nesta semana no Rio de Janeiro, o gerente geral de comercialização de gás e energia da Petrobras, João Marcelo Barreto, disse confiar nas instituições para que o resultado seja confirmado, e disse que, se isso não acontecer, o país terá um “problema colocado”.
“O LRCAP é um processo complexo, com muitos interesses envolvidos. Mas a gente confia nas instituições, confia que as soluções técnicas vão ser dadas. Temos a demanda para necessidade de segurança energética. Esse leilão era para ter sido feito há alguns anos, mas foi postergado. Então a gente confia que vai ter um resultado positivo”, disse Barreto.
Segundo o executivo, para além das necessidades do sistema elétrico, o leilão tem capacidade para revolucionar o mercado nacional de gás, com uma demanda que vai destravar uma série de modalidades de negócio de fornecimento de demanda.
“O LRCAP foi o primeiro leilão de energia pensado junto com o mercado de gás na questão do planejamento do transporte. Quando vemos o efeito disso [leilão], talvez estejamos falando de um outro mercado de gás. Talvez estejamos falando em 90 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia [projeção da Petrobras para a demanda incremental com os projetos atuando no pico]”, disse.
Nessa conta, ele considera todas as origens de gás, desde molécula injetada na malha de transporte, passando pela modalidade de térmica instalada na boca do poço ou a GNL (gás natural liquefeito). Sobre esse último insumo, o executivo diz que a demanda do LRCAP pode destravar oportunidades de negócio, como a liquefação de gás nacional para fornecimento a projetos.
“Agora, talvez, com essa escala que vem, poderemos promover uma maior oferta de gás de outras fontes, gás da Argentina e da Bolívia, inclusive, além de modais de GNL, que podem proteger a gente de ficar exposto às variações do preço internacional de GNL”, continuou Barreto.
A Petrobras contratou, nesse leilão, 2,6 GW de projetos já existentes. O parque de termelétricas da estatal tem uma capacidade instalada de 4,9 GW. Operando no pico, afirma, essas usinas consomem entre 25 e 30 milhões de metros cúbicos de gás.
Eneva
O gerente geral para trading da Eneva, Glauco Campos, afirmou que o impasse relativo ao leilão vai além de prejuízos a participantes como Petrobras e a própria Eneva, significando o travamento de um “caminhão de dinheiro” em investimentos para a infraestrutura do país.
“Se não colocar essas plantas de pé, qual vai ser o impacto em 2028, 2029 e 2030? É não ter uma base robusta de fornecimento de energia no país”, disse reiterando que a Eneva já vinha investindo previamente no LRCAP, mesmo antes do resultado, porque estava claro que esse tipo de investimento se justifica no Brasil vis a vis a projeção de demanda do país.
“Continuamos acreditando nesse fundamento [de demanda], e esperamos que isso se resolva o mais rápido possível, para destravar os investimentos que todos os agentes têm de fazer.
TAG
Embora não tenha projetos diretamente ligados ao LRCAP, a TAG prevê reforçar sua infraestrutura para fornecer gás aos projetos vencedores. Nesse sentido, a trava ao LRCAP também cria dificuldades à empresa, conforme Henrique Amorim, gerente comercial da transportadora de gás.
“Defendemos a manutenção do leilão, e que isso também possa trazer definições céleres. Temos apetite para investimentos para atender à demanda que se configura, mas o tempo é curto”, disse Amorim relativamente a melhorias para atender especificamente aos novos projetos como reforços estruturais na malha para viabilizar maior fluxo de gás.
“O que a gente olha mais é o aspecto do tempo. Porque são investimentos relevantes, desafiadores. Estamos preparados. Mas, olhando para 2028, que é quando vêm as novas térmicas, cada dia que passa nessa insegurança é menos tempo para fazer as devidas trocas [de equipamentos] e promover os investimentos de forma tranquila”, continua o executivo.






