19/01/2026 | 08h00  •  Atualização: 20/01/2026 | 12h04

Mão de obra: Ritmo acelerado de investimento em 2026 preocupa setor

Foto: Agência Brasil

Amanda Pupo, da Agência iNFRA

O mercado de trabalho no setor de infraestrutura e logística vai continuar aquecido neste ano, aumentando a pressão sobre a oferta de mão de obra, que já é um dos principais gargalos de empresas do segmento. O avanço consistente no patamar de investimentos aliado à escassez de trabalhadores, de diferentes níveis, joga contra a resolução do problema. Só em investimentos privados em concessões e PPPs (Parcerias Público-Privadas) no setor de transportes e logística, devem ser injetados R$ 43,3 bilhões neste ano, segundo o Livro Azul da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).
 
Ao longo de 2025, a escassez de mão de obra qualificada foi apontada pelo mercado como um dos principais fatores que limitaram o crescimento das empresas do setor. A situação repercute nos preços. Enquanto o índice geral do DNIT-R – usado para avaliar o comportamento dos preços de obras rodoviárias – apresentou queda na variação acumulada em doze meses verificada em novembro, no mesmo período houve um aumento significativo nos custos com pessoal no setor de infraestrutura rodoviária. 

A mão de obra registrou alta de 6,35% no acumulado. Entre as categorias que mais pesaram para o custo estão as de armador (7,29%), motorista de caminhão/veículo especial (7,04%), servente (6,52%), operador de equipamento (5,86%) e ajudante (4,22%).

Presidente da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), Marco Aurélio de Barcelos avalia que, especialmente a partir deste ano, a questão deve começar a de fato se tornar um problema para as empresas. “Para algumas concessionárias, a questão da escassez, não só da mão de obra, mas também da cadeia de fornecedores de empresas de engenharia, começa a figurar entre os top 3 itens de preocupação”, afirmou à Agência iNFRA

Economista da 4intelligence, Bruno Imaizumi disse que o número de ocupados na construção de obras de infraestrutura mostra crescimento e tendência de alta. Além da perspectiva de avanço da economia, o ano eleitoral também pode exercer uma influência positiva nestes números, observou. 

“A escassez de mão de obra continuará existindo com desemprego baixo, novas gerações entrando mais escolarizadas – e querendo exercer menos funções braçais – e salários que podem ser alcançados facilmente no mercado de trabalho informal, vide gig economy”, afirmou Imaizumi à reportagem. 

Oito anos de investimento elevado
Barcelos, da ABCR, apontou que a dificuldade existe tanto na mão de obra qualificada como na contratação de trabalhadores que atuam na ponta das obras. “Tem sido desafiador recrutar mão de obra para a ponta”, disse o executivo, para quem o país precisa se antecipar à situação para evitar que a escassez se torne um óbice para a execução de todos os investimentos que estão contratados, lembrando que as obras estão acontecendo também com mais intensidade em mobilidade e saneamento.

Ele observou que o patamar de investimentos em concessões rodoviárias vai iniciar uma crescente em 2026 e alcançar um platô em cerca de dois anos, e seguir nesse patamar elevado por oito anos.

“O que vamos exigir em termos de investimento, mobilização de capital, mobilização de mão de obra nos próximos oito anos seguidos é inédito. Isso vai rebalancear o mercado. Tem que ter condições de incrementar a oferta, porque do contrário vai reverberar em preço ou em óbice para que o investimento todo se torne realidade”, disse. 

A Abdib também tem monitorado o gargalo pelo Comitê de Construção Pesada. Presidente da entidade, Venilton Tadini reforça que o diagnóstico é visto tanto na mão de obra com menor remuneração como na contratação de engenheiros. “É uma situação complexa”, disse. 

Há ainda uma percepção no setor de que, para determinadas vagas, as empresas perdem mão de obra para a informalidade e benefícios sociais.  

Para Barcelos, uma “grande mobilização nacional” será necessária, a começar pela necessidade de o Estado fortalecer cursos de engenharia. “O Crea (Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia), os sindicatos, as confederações precisam se engajar, mas o Estado também precisa se mobilizar, revisitar políticas”, afirmou o executivo.

Marítimos
A falta de mão de obra não se restringe ao setor rodoviário e nem ao segmento de construção, já que a contratação de motoristas e operadores das demais áreas também está difícil. O gargalo foi listado como um dos doze problemas abrangentes do transporte no país dentro do diagnóstico produzido para o PNL (Plano Nacional de Logística) 2050, em consulta pública até domingo (18). 

“Pelo maior volume de carga transportada e menor capacidade de transporte por veículo, esse problema afeta com mais intensidade a operação de transporte rodoviário, mas também aparece com relevância no caso dos modos aquaviário e aeroviário”, diz o documento elaborado a partir da escuta do setor produtivo.

No transporte marítimo, os relatos apontam carência de capitães e tripulantes, que, neste caso, seriam causadas por barreiras institucionais à formação e certificação. No caso da cabotagem, a situação é ainda pior pela obrigação legal do emprego de ao menos dois terços de mão de obra brasileira, o que é dificultado pelo fato de o Brasil não formar mão de obra suficiente para suprir a demanda do setor, aponta o documento. Apenas a Marinha do Brasil pode oferecer a capacitação, “o que ocorre com poucas vagas e de forma lenta”, indica. 

Estudo acompanhado pela Abac (Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem) vai na mesma direção. O relatório mais recente aponta para uma significativa falta de OMM (Oficiais de Marinha Mercante) no horizonte de 2030, mitigada por “esforços” da autoridade marítima em aumentar a oferta de formação. 

“Sem as eólicas, ainda assim teríamos uma falta de cerca de 720 OMM, o suficiente para tripular (ou não) cerca de 50 embarcações. Isso poderia trazer um prejuízo incalculável para o setor e para as empresas de navegação, devido ao alto custo de operação dessas embarcações”, aponta o estudo desenvolvido pelo Cilip (Centro de Inovação em Logística e Infraestrutura Portuária), em conjunto com a Fundação Vanzolini, indicando a necessidade de ampliação de vagas para os cursos de formação. 

Aviação
A situação também é percebida no setor aéreo. O diagnóstico colhido pelo governo é de falta de gestores e operadores capacitados, sobretudo em aeroportos municipais e regionais. Embora existam iniciativas pontuais de capacitação, como as conduzidas pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), elas permanecem insuficientes frente à demanda. 

“Esse gargalo de capital humano não se restringe apenas a profissionais operacionais, mas também envolve funções gerenciais e operacionais no contexto aeroportuário”, diz o documento do PNL. 

O MPor (Ministério de Portos e Aeroportos) prevê para este semestre a publicação de um edital, em parceria com Sest/Senat, para oferta de 74 bolsas voltadas à formação de mecânicos de manutenção aeronáutica. O investimento para a oferta das bolsas de estudo é estimado em R$ 500 mil, feito por contratação direta das vagas, por meio da SAC (Secretaria de Aviação Civil) e o Senat.

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