Geraldo Campos Jr. e Lais Carregosa, da Agência iNFRA

A análise do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), em nota técnica, sobre a margem de escoamento disponível no SIN (Sistema Interligado Nacional) para conexão de sistemas de baterias que participarão do leilão de dezembro indica que o espaço na rede é superior à necessidade de potência estimada, afirmou a Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia).
A entidade identificou cerca de 56 GW (gigawatts) de capacidade, ante uma potência necessária de 4,5 GW a 10 GW entre 2028 e 2030, ou seja, pelo menos mais cinco vezes a necessidade. Para as áreas em que haverá bonificação no leilão – locais prioritários onde o preço de classificação terá bônus de 10% – foi identificada margem disponível de 13,7 GW, também acima da demanda de potência do SIN.
Por isso, segundo o diretor-executivo da Absae, Fabio Lima, os lances do certame devem se concentrar nas áreas bonificadas, que estão localizadas nas regiões Norte e Nordeste e no norte de Minas Gerais. “Vamos ter um quadro melhor quando tivermos o resultado da inscrição efetiva dos projetos, depois da habilitação técnica. Mas o fato é que tem margem nos pontos bonificados, então, boa parte dos projetos deve se concentrar por lá”, afirmou.
De acordo com a associação, 93 das 129 localidades bonificadas têm margem de escoamento. As áreas estão no Nordeste, principalmente nos estados da Bahia, Piauí e Ceará, e no norte de Minas Gerais. A bonificação considera pontos da rede onde, além de potência, a bateria tende a contribuir também para aumentar a robustez elétrica, ou seja, em locais onde há menos capacidade de manter a tensão estável.
Contrafluxo
Fontes explicam que a metodologia do ONS para análise do acesso de baterias ao SIN é diferente da que é utilizada para demais empreendimentos de geração ou de carga. Isso porque é considerado o perfil diferente do armazenamento, que atua no contrafluxo na maioria das horas, descarregando no horário de pico – quando não há geração solar – e carregando no horário em que há maior oferta de energia na rede.
O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, chama atenção para algumas restrições na rede indicadas pelo ONS no norte de Minas Gerais, no sul da Bahia e no Ceará, áreas que sofrem com o curtailment. Ainda assim, ele aponta que a maior parte dos barramentos com bonificação têm margem. “É natural ter prevalência desses locais no leilão, que foi desenhado com um critério locacional justamente para isso”, afirmou.
Mello projeta que a demanda final do certame deve ficar próxima a 3 GW, conforme cálculos da Thymos. Assim, ele avalia, a margem indicada pelo ONS será suficiente para acomodar os projetos, inclusive nas regiões que contam com alguma restrição.
O diretor de Novos Negócios da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias), Marcello Cabral, chama atenção para o fato de a nota apontar que o fluxo de recarga da bateria limitou a conexão em diversos pontos. “É importante avaliar se os cenários adotados capturam adequadamente a possibilidade de carregar as baterias nos horários de excedente eólico e solar, respeitando as condições da rede”, disse.
Conclusão esperada
Para Cabral, a publicação da margem de escoamento disponível é um avanço importante para o leilão, já que dá “mais transparência às condições de conexão e permite que os empreendedores avaliem a localização e o dimensionamento dos seus projetos”. Além disso, segundo ele, a existência de margem em diversos pontos deve contribuir para a competitividade do certame.
De acordo com o diretor-executivo da Absae, a nota técnica do ONS é positiva e veio na linha esperada pelos agentes que cadastraram projetos, que já estruturaram os empreendimentos considerando a metodologia de acesso à margem. Por isso, segundo ele, não deve haver grande número de projetos inabilitados por falta de espaço na rede.
Na etapa de cadastros, quase 300 GW de projetos foram enviados à EPE (Empresa de Pesquisa Energética). “Como foram identificados poucos barramentos onde você não tem margem dentre os barramentos bonificados, por exemplo, isso não deve ser um fator que exclua um percentual elevado de projetos”, afirmou o diretor da Absae. Por isso, ele afirma que mesmo após a habilitação o número de empreendimentos deve continuar elevado, o que deve favorecer a competição por preços menores.





