18/08/2026 | 16h30  •  Atualização: 18/08/2026 | 16h39

ANTT vê potencial de avanço ferroviário ainda que haja mudança de governo

Foto: Divulgação/PAC

Luiz Araújo, da Agência iNFRA

Seis projetos ferroviários da carteira federal vão permanecer na agenda dos próximos anos independentemente do resultado das eleições. A avaliação foi feita pelo diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Guilherme Sampaio, durante o fórum “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, realizado nesta terça-feira (18). “Se não conseguirmos neste ano ainda, o próximo governo, seja esse ou o que venha, vai ter pelo menos seis projetos já encaminhados”, afirmou

A relação citada pelo diretor inclui EF-118, Corredor Minas-Rio, Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), Malha Oeste, Malha Sul e Ferrogrão. Todos fazem parte da carteira ferroviária apresentada pelo governo em novembro de 2025 para licitação este ano. A expectativa da ANTT é que os novos projetos e a retomada de trechos contribuam para elevar a participação das ferrovias na matriz de transportes dos atuais 15% para 20%.

O Corredor Minas-Rio está na pauta do TCU (Tribunal de Contas da União) para apreciação da proposta de chamamento público para a operação do trecho, que seria a primeira do modelo. Se aprovado, segundo Sampaio, ele será usado como modelo para buscar a retomada de operações em parte dos mais de 10 mil quilômetros de ferrovias que hoje estão inoperantes e serão devolvidos pelas concessionárias. Os outros projetos devem ficar para licitação no próximo governo.

Citando as Eleições, Sampaio ressaltou que a necessidade de investimento em infraestrutura é um tema no qual as candidaturas não divergem. “Justamente num ambiente que a polaridade divide, tem algo que é infraestrutura. […] A infraestrutura não é fim, ela é meio do progresso e desenvolvimento”, disse.

Sampaio também projetou uma expansão dos investimentos ferroviários dos atuais R$ 21 bilhões para cerca de R$ 60 bilhões por ano. Segundo ele, o avanço precisa ser acompanhado por maior integração das ferrovias com rodovias e portos. “O Brasil tem uma cobertura ferroviária relativamente pequena no território. Somos servidos muito mais por rodovia do que por ferrovia”, destacou.

Financiamento
No mesmo painel, a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, afirmou que o banco pretende contribuir para a expansão ferroviária, relembrando as linhas de financiamentos de até 40 anos anunciadas recentemente. O objetivo é adequar o perfil de crédito ao longo período de maturação dos projetos. “O papel do setor privado é fundamental e o BNDES está lá para apoiar”, disse.

A diretora classificou o momento atual como o início de um “superciclo de crescimento em infraestrutura” que precisa ser preservado nos próximos anos. Segundo ela, os investimentos no setor passaram de R$ 170 bilhões em 2023 para cerca de R$ 300 bilhões atualmente. “A gente tem que dobrar o investimento em infraestrutura, mas a gente tem que pensar, e é possível fazer isso”, afirmou.

Segundo Luciana, o banco tem ampliado o uso de instrumentos do mercado de capitais e operações de cofinanciamento para aumentar a capacidade de investimento. Ela citou o segmento rodoviário como exemplo dessa expansão: o volume financiado pelo BNDES passou de uma média de aproximadamente R$ 2 bilhões para algo entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões. “O Brasil é um canteiro de obras na questão rodoviária”, afirmou.

Entraves
Apesar do aumento dos investimentos, o diretor de Relações Institucionais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Roberto Muniz, apontou entraves ambientais e jurídicos como obstáculos para transformar os projetos planejados em infraestrutura efetivamente implantada. Segundo ele, empreendimentos de longo prazo exigem previsibilidade aos investidores. “O investidor olha para três coisas: se as normas são estáveis, se são previsíveis  e se elas são seguras.”

Entre os pontos levantados por Muniz está a aplicação da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que prevê consulta prévia a povos indígenas e comunidades tradicionais potencialmente afetados por empreendimentos. Na avaliação do representante da CNI, é necessário aprimorar a forma como esses procedimentos são incorporados aos processos de licenciamento para reduzir conflitos durante a implantação de grandes projetos.

Muniz citou como exemplo o impasse envolvendo a dragagem de manutenção da Hidrovia do Tapajós. Segundo ele, a dificuldade para autorizar a intervenção ocorre justamente quando diferentes áreas do governo se preparam para os efeitos do El Niño. Para o diretor, problemas regulatórios e de licenciamento podem limitar a capacidade de aproveitar o aumento da demanda internacional por produtos brasileiros.

Luciana defendeu que as futuras modelagens avancem na definição prévia das contrapartidas sociais dos empreendimentos. Para ela, essas obrigações podem ser estabelecidas já na concessão, da mesma forma que alguns projetos podem chegar aos leilões com o licenciamento ambiental mais avançado. A medida, afirmou, permitiria deixar claro para as comunidades quais benefícios estarão associados à implantação da infraestrutura.

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