Geraldo Campos Jr. e Lais Carregosa, da Agência iNFRA

O fortalecimento do El Niño aumenta a atenção do setor elétrico brasileiro para os próximos meses. As distribuidoras de energia têm reforçado seus planos de contingência e se preparado para lidar com os eventos extremos relacionados ao fenômeno. Medidas como aumento de equipes para atendimento de emergências e aceleração das manutenções preventivas são algumas das ações em curso, combinadas com o uso de IA (Inteligência Artificial) para aprimorar as previsões.
Na Energisa, que possui distribuidoras em onze estados que sofrem de maneiras diferentes com fenômenos como este, os planos de contingência estão sendo robustecidos. O pacote adicional inclui a contratação extra de quase 400 equipes de empreiteiros pelo Brasil para mobilização sob demanda e mapeamento e contratação de mais de mil geradores de energia adicionais para casos de contingência.
Segundo Gioreli de Sousa Filho, vice-presidente de Redes da Energisa, as medidas também contemplam aumento de 30% na substituição preventiva de transformadores de distribuição – diante das previsões de aumento de carga por conta do calor, o que pode danificar esses aparelhos –, além da ampliação em 11% de ações preventivas como podas em áreas urbanas e limpeza de faixas em áreas rurais.
“Estamos colocando o pé no acelerador para concluir uma série de ações até setembro, uma vez que a previsão é que o El Niño fique mais intenso no último trimestre”, disse o executivo, que ressaltou que o trabalho de limpeza de faixa, por exemplo, seria concluído inicialmente até dezembro, mas foi antecipado. Ainda segundo ele, em quatro das nove distribuidoras do grupo a demanda por carga já é maior do que nos últimos seis anos neste período, o que acende um alerta em relação aos transformadores.
IA e inovação
Essas medidas extras, segundo Gioreli, estão alinhadas a um conjunto maior de ações que já vêm sendo adotadas pela Energisa, como o aprimoramento dos modelos para prontidão usando meteorologia, inteligência artificial e ciência de dados. Dentre as inovações, o executivo citou o uso de algoritmos para identificar previamente fragilidades na rede, indicando locais prioritários para manutenção; inspeção de redes com drones equipados com IA, que detectam sozinhos anomalias; e soluções de recomposição rápida, como emendas automáticas e estruturas simplificadas de fibra que agilizam o religamento da energia.
Ele destacou que o grupo Energisa conta com uma ferramenta própria de previsão climática, que coleta informações de radares e fornece previsões com até 72 horas de antecedência, permitindo identificar via dados georreferenciados onde os eventos ocorrerão e qual a probabilidade.
No caso da Copel, distribuidora do Paraná que já tem enfrentado eventos extremos nas últimas semanas, a tecnologia também tem sido uma aliada poderosa na previsão e planejamento. O diretor de Operação e Manutenção da companhia, Gustavo Carvalho, citou que a inteligência artificial é utilizada para traduzir previsões meteorológicas como de rajadas de ventos e volumes de chuva em potenciais impactos operacionais específicos para a rede. “Isso permite um direcionamento ágil das equipes para esses locais”, explica.
Além da tecnologia, a Copel tem reforçado as ações para enfrentar a intensificação dos eventos extremos. Foram incorporadas 100 novas equipes, com mais de 300 eletricistas, para manutenção e primeiro atendimento, que já estão ativas desde agosto. O número de operadores no centro de operação também foi incrementado. Já as atividades de poda e roçada de vegetação foram aceleradas, com 37 equipes dedicadas no estado e 661 mutirões.
“A gente defende muito aqui dentro da Copel que a preparação é o grande diferencial quando a gente fala de eventos severos. Então trabalhamos com alguns pilares, que são investimentos estruturais, manutenções preventivas e logística operacional. E condições específicas também para uma condição do super El Niño, que exige uma antecipação maior das ações”, afirma Gustavo Carvalho, que destaca ainda o uso de IA e modelos matemáticos para planejar manutenções, gerenciar equipes e prever deslocamentos de recursos de forma antecipada.
Simulados
A EDP, que possui duas concessões de distribuição em São Paulo e no Espírito Santo, tem intensificado treinamentos das suas equipes operacionais com simulados de emergência, conta o diretor-geral da EDP Espírito Santo, Marcos Campos. Segundo o executivo, os dados são analisados por ferramentas de tecnologia para medir a resposta e identificar pontos de melhoria. “Então, esse tipo de simulação é superimportante para que o nosso time, não só a alta direção, o time da operação, mas a ponta saiba o que fazer no momento de crise”, destacou.
O plano de contingência da companhia aposta em equipes multidisciplinares para acelerar a atuação em caso de emergência. “A gente consegue aumentar a força de trabalho de um dia normal em sete vezes ou até dez vezes a depender da região”, disse Campos. Ele explica ainda que a EDP tem se planejado levando em consideração os cenários mais pessimistas para o fenômeno climático. Por isso, de acordo com o executivo, a companhia antecipou para o primeiro semestre do ano as atividades planejadas e dimensionou as suas equipes para possíveis emergências na segunda metade de 2026.
O diretor da EDP destaca ainda que os governos de São Paulo e do Espírito Santo lançaram seus próprios planos de contingência para o El Niño. “Estamos conectados com tudo que acontece nesses parceiros para que a gente consiga, no momento da crise, ter a certeza do nosso papel, do devido acionamento e que tudo aconteça, obviamente, com a melhor preparação possível”, disse.
Para Campos, um ponto positivo das concessões é que estão localizadas em geografias diferentes, o que dificulta a ocorrência de emergências climáticas simultâneas e permite o deslocamento de recursos entre as duas distribuidoras.
No caso da Neoenergia, a empresa conta com um pacote de R$ 50 bilhões a serem investidos nas áreas de concessão até 2030, dos quais 46% serão destinados à expansão da infraestrutura elétrica e 40% à modernização, digitalização e melhoria de rede, com atenção especial à resiliência dos sistemas e à continuidade do fornecimento diante dos impactos das mudanças climáticas.
Segundo Thiago Freire Guth, diretor Executivo de Distribuição da Neoenergia, para fortalecer a capacidade operacional, a empresa está internalizando e capacitando mão de obra, com previsão de contratar mais de 2.500 técnicos e eletricistas próprios até 2027, ampliando em aproximadamente 25% a base atual de dez mil profissionais.
“Também estamos ampliando o uso da inteligência artificial para mitigar os impactos de eventos climáticos extremos. Com investimentos de cerca de R$ 30 milhões em IA neste ano, já estamos utilizando, por exemplo, a tecnologia para análise de imagens térmicas e variáveis operacionais para prever falhas na rede elétrica, o que faz com que possamos realizar manutenções preditivas”, afirmou Guth.
Plano de ações
Em nota, a Enel São Paulo disse que preparou um plano de ações para os 24 municípios de sua área de concessão, que inclui contratação de 1,6 mil profissionais de campo nos últimos dois anos, ampliação da frota operacional, reorganização territorial da operação e plano permanente de mobilização preventiva.
A distribuidora destaca a ampliação do número de bases operacionais próprias, de 17 para 23. O objetivo é aumentar a capilaridade da operação e reduzir o tempo de deslocamento das equipes. Disse ainda que tem reforçado a parceria com prefeituras e órgãos públicos e que intensificou reuniões e revisões de protocolos com as autoridades locais. “Em situações de contingência, poderá montar salas de cooperação nas cidades mais impactadas”, afirmou.
A Light informou em nota que seu plano especial de contingência para períodos de condições climáticas adversas prevê o reforço das equipes de campo e do monitoramento do sistema elétrico. Entre as medidas adotadas estão o posicionamento de equipes e técnicos em pontos estratégicos da área de concessão e o reforço da operação do Centro de Operação Integrado, que monitora o sistema em tempo real.
A distribuidora carioca disse ainda que, quando há previsão de chuva e ventos fortes, também amplia a estrutura de atendimento e mantém equipes de plantão 24 horas para atuação emergencial. “A Light acompanha também as condições meteorológicas e ajusta sua operação de acordo com as previsões e os possíveis impactos sobre a rede elétrica”, informou.





