Amanda Pupo, da Agência iNFRA

Comunicar “extensivamente e intensivamente”. Esse é o plano da Via Cristais, concessionária da Vinci Highways que cuida da BR-040 entre Belo Horizonte (MG) e Cristalina (GO), para implementar na rodovia o HS-WIM (High Speed Weigh-In-Motion), sistema de pesagem automática de veículos de cargas em movimento, em substituição a balança tradicional.
A indicação é dada pelo CEO da concessionária, Tulio Abi-Saber, para quem a adoção da tecnologia ficou um pouco mais complexa no Brasil devido ao fato de o HS-WIM se parecer com um pórtico de pedágio sem cancelas, o free flow – sistema que está em fase de consolidação e já tem demandado uma comunicação ostensiva com os usuários.
As duas tecnologias representam mudanças relevantes para as concessões rodoviárias, por, entre outros motivos, melhorarem o fluxo das vias, mas carregam uma complexidade adicional na implementação por mudarem a experiência do usuário na estrada. Embora demandem esse tipo de adaptação e cuidado especial com a comunicação, são duas tendências “irreversíveis” diante dos benefícios gerados, disse Abi-Saber em entrevista à Agência iNFRA.
No caso do free flow, a Via Cristais irá avaliar futuramente se fará a adaptação das praças de pedágio tradicional (veja mais abaixo). Mas, para o HS-WIM, a mudança já está acertada. As obras para implementação da tecnologia começaram efetivamente no último fim de semana, com previsão de a nova balança entrar em funcionamento no fim deste ano. A instalação acontece em Paraopeba (MG), permitindo a pesagem automática de 100% dos veículos que passam pelo trecho monitorado, sem que isso demande uma parada do caminhão.
De acordo com o CEO da concessionária, o objetivo é que, com dois meses de antecedência do início da operação, a novidade comece a ser sinalizada na via. O plano de comunicação não se limita à estrada. Além das placas, outdoor e da própria identificação do pórtico como uma balança de pesagem, a Via Cristais traça uma estratégia para chegar aos motoristas pelos meios de comunicação tradicionais, blogs, redes sociais, sindicato de transportadoras e dos caminhoneiros e canais do WhatsApp, por exemplo.
“Aqui a gente pode aproveitar muito o aprendizado que houve com o free flow no país, para comunicar intensivamente, o mais forte possível”, disse o executivo. Ele levanta a preocupação que, além da necessidade de o usuário-alvo do HS-WIM ter compreensão sobre a tecnologia, os demais motoristas não confundam o pórtico com um pedágio free flow, adicionando uma camada de incompreensão sobre as cobranças – mesmo que ainda não haja pedágio sem cancelas especificamente na concessão da Via Cristais, que assumiu a operação da BR-040 – antes administrada pela Invepar – no início do ano passado.
“Essa é uma insegurança que a gente não pode gerar no usuário”, pontuou.
Carga controlada
O setor rodoviário começou a acumular experiências com o HS-WIM dentro de um Sandbox Regulatório supervisionado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) na Ecovias do Cerrado, que implementou a tecnologia em 2023. Como mostrou a Agência iNFRA, após dois anos, o caso reuniu números positivos e deu conforto para a reguladora e as demais concessionárias começarem a pensar na transição das demais operações. Assim, ainda no ano passado algumas operadoras começaram a apresentar à ANTT seus respectivos projetos para adotar o HS-WIM nos contratos.
Criado para substituir as balanças tradicionais de pesagem, o HS-WIM não exige que os caminhões passem em velocidade reduzida na pista e fiscaliza 100% do tráfego na rodovia. Um dos dados do sandbox apontou que, nas balanças tradicionais, haveria seis vezes mais evasões do que multa pelo excesso de peso – que é paga à União, e não à concessionária. Pela baixa evasão, a expectativa é que, a médio e longo prazo, a fiscalização integral gere um efeito pedagógico e induza transportadores a carregar somente a carga permitida nos caminhões – aumentando a segurança da via e por consequência a qualidade do pavimento.
O CEO da Via Cristais pretende “amarrar bem” no plano de comunicação a ideia de que a operação não pretende criar um “problema” para o caminhoneiro – já que os pontos na carteira são marcados na CNH do motorista, embora o ônus da multa, no caso de contratação por embarcador ou transportador, fique com a empresa normalmente.
“A gente não quer de forma alguma criar um problema pro caminhoneiro, pelo contrário. A nossa sinalização vai começar muito antes e avisando a partir de qual data iniciaremos. O caminhoneiro passa a ser parceiro da concessionária no controle do peso junto ao embarcador, para assegurar que o caminhão que ele está dirigindo, seja dele ou não seja dele, esteja dentro das especificações, dentro das normativas”, afirmou Abi-Saber.
O executivo observou ainda que, sem caminhões transitando com excesso de peso, a qualidade da rodovia vai melhorar para todos, especialmente nas faixas de veículo pesado.
“A estrada não foi projetada para o excesso de tráfego. Então, não é só um tema de manutenção, não é só um tema de abrir buraco, é um tema de deformar a estrada. Minha expectativa é que a gente tenha uma durabilidade muito maior nas nossas rodovias, uma manutenção do nível de qualidade dela por muito mais tempo, sem precisar de tanta manutenção”, explicou.
Obras
Além da implementação do HS-WIM e de novos pontos de parada de descanso, está no horizonte da Via Cristais a ampliação de capacidade da rodovia administrada. A ideia é concluir ao final do ano que vem as intervenções cujas entregas estão previstas para 2028. Uma delas é a criação das faixas adicionais entre o Anel Rodoviário, em Belo Horizonte (km 533) e o Ceasa, em Contagem (km 523), que terá impacto relevante para o trânsito da região metropolitana de BH.
“Hoje esse trecho está majoritariamente com duas faixas por sentido. Vamos transformar em quatro faixas por sentido e em perto de 60% da extensão, seis faixas por sentido”, explicou o executivo, lembrando que, em horários de pico, a via registra de dez a 13 quilômetros de congestionamento todos os dias.
Já a única obra de duplicação prevista no contrato será localizada em Cristalina (GO). “A cidade é um ponto importante para o agro, conecta Paracatu, que é outra cidade do agro, com o polo logístico de Goiás. Vamos duplicar dez quilômetros e encaixa em outra área que já está duplicada”, explicou Abi-Saber.
Free flow
A Via Cristais opera sete praças de pedágio tradicionais já existentes na concessão e por ora não tem previsão de adaptação ao modelo free flow. Para o executivo, o momento é de consolidação do modelo de negócios do pedágio sem cancelas, que vai permitir às operadoras observarem como vai se comportar a inadimplência.
“Acho que a expectativa de todos é que a gente tenha uma estabilização do modelo, para que a gente possa então avaliar a adesão ou não”, disse o CEO, que elogiou o trabalho de integração que está sendo realizado neste momento entre concessionárias e o Ministério dos Transportes, junto do Serpro, para centralização dos dados da cobrança na CNH. “Está sendo muito bem feito”, avaliou.





