Geraldo Campos Jr. e Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA
Com a proximidade da abertura do mercado livre de energia para a baixa tensão, marcada para começar em 2027, empresas e analistas do setor elétrico têm demonstrado preocupação com uma possível falta de atratividade nas migrações em função do cenário de alta do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças). Especialistas ouvidos pela Agência iNFRA afirmam que a diferença de preços para o consumidor livre e o cativo – que é aquele atendido pela distribuidora – vem diminuindo, o que levará a uma necessidade de adaptação dos comercializadores.
Normalmente, as comercializadoras conseguem oferecer descontos que chegam a 30% para os consumidores livres, o que tornava a migração atrativa. No entanto, com a possibilidade de novas altas do PLD em 2026, além de uma redução de custos das distribuidoras esperada no horizonte, o cenário não seria o mesmo.
A redução dessa diferença tem gerado um alerta nos agentes, que se questionam acerca da vantajosidade de investir no “varejo” (baixa tensão), aponta Mateus Cavaliere, Head de Planejamento e Inteligência de Mercado da consultoria PSR.
“A conta que sempre se fez era de que havia um gap importante, uma diferença relevante entre o que o consumidor cativo pagava e o que o consumidor livre pagava, que fazia sentido economicamente você migrar aquele consumidor”, afirma. “Agora, [com] grande parte dos contratos regulados terminando, que eram os contratos térmicos caros, deve haver uma redução no custo médio do mercado cativo. E com os preços tão pressionados no mercado livre, esse gap entre as duas possibilidades começa a se fechar.”
Segundo Cavaliere, também entra na conta o custo de captação desses clientes e de operacionalização da migração. “Então, cada vez que você vai trazendo mais para perto o custo do mercado livre e o custo do mercado cativo, vai ficando cada vez mais difícil você achar espaço para ter alguma margem nesse tipo de operação”, explica.
Novos produtos
Fred Menezes, diretor de Comercialização da Armor Energia, afirma que o segmento terá que se adaptar para conseguir aproveitar a abertura do mercado. “O grande desafio para o setor nesse momento é justamente ter essa abertura iminente para 2027 e 2028 e o preço de longo prazo estar subindo. O mercado precisará encontrar formas de mostrar para o consumidor que ele ainda terá um ganho que justifique migrar.”
Uma das soluções para encontrar essa atratividade, na visão de Menezes, seria a oferta de mais produtos com preços dinâmicos conforme a faixa horária, numa lógica similar à da Tarifa Branca que existe no mercado cativo e que tem a expansão debatida atualmente na ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
“O que eu acredito que o mercado precisa fazer é entender que a gente está em um novo sistema de preços, que além de ser mais conservador, fazendo com que o PLD fique ainda mais pesado, ele tende a ser mais punitivo em horários de grande demanda. Mas tem horários que o preço é zero. O comercializador precisa entender isso pensando naquela pessoa que consegue ter uma elasticidade no seu consumo”, afirma.
Ainda segundo o diretor da Armor, esse movimento pode beneficiar as empresas de comercialização. “Se o horário está sendo o que dita a regra atualmente, avalio que o mercado tem que conseguir perceber que existem eficiências que podem ser feitas neste sentido, para modular o consumo da sua carteira.”
Olho em 2027
Matheus Machado, especialista em inteligência de mercado do Grupo Bolt, destaca que será preciso ver se o cenário de preços atual, com tendência de alta, se repetirá em 2027, o que dependerá em grande parte do próximo período chuvoso. Segundo ele, isso afetará diretamente o PLD no ano da abertura.
“O ano que vem é outro ano. O sistema brasileiro tem essa característica [de recuperação], como foi de 2021 para 2022. Mas, no limite, um ano ruim acaba pressionando o próximo. Ou seja, sendo ruim em 2026, em 2027 não pode ser só ok, tem que compensar o anterior”, afirma. “Acho que existe essa característica de um pouco de pressão para o próximo período úmido para atrair com grandes descontos os novos consumidores.”
Ainda segundo Machado, mesmo em um cenário atrativo para o mercado livre, já existiria a “dificuldade natural de competição”. Por isso, esse desafio é acentuado quando não há “um preço atrativo para uma oferta de migração”. “Um preço de PLD que impacta a curva futura inteira mexe diretamente na atratividade do mercado livre para os consumidores”, destacou.





