Amanda Pupo, da Agência iNFRA
A Aegea estima que poderá começar no segundo semestre do próximo ano os investimentos que vão viabilizar o principal projeto de reúso da companhia de saneamento, hoje o principal operador privado do país. Fechado com a Petrobras há cerca de dois anos, o contrato prevê abastecer com água de reúso o Complexo de Energias Boaventura (ex-Gaslub), alternativa que busca contornar a escassez hídrica da região leste da baía da Guanabara, usando o efluente tratado de ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto) de São Gonçalo (RJ).
Em entrevista à Agência iNFRA sobre como a operadora está se estruturando para conviver com o aumento da demanda por água e os impactos da mudança do clima sobre os recursos hídricos, o CEO da Aegea, Radamés Casseb, contou que o projeto executivo do empreendimento está em fase final de elaboração.
No momento, a companhia discute com a Petrobras a solução do projeto executivo que vai determinar a qualidade da água. “Eles determinam a qualidade da água e de lá a gente desenha o processo industrial”, contou. Como o projeto é privado, esse nível será determinado pelas necessidades específicas do empreendimento.
É o projeto mais relevante para reúso da água tocado pela Aegea, empresa que atende 890 cidades do Brasil. Outro destaque é um projeto de fornecimento de água de reúso para a planta da Braskem em Duque de Caxias (RJ).
Quando o negócio com o Complexo de Energias Boaventura estiver de pé, a expectativa é de que ele aumente a oferta de água potável para o consumo humano em comunidades em Itaboraí, Maricá e São Gonçalo. De acordo com a Aegea, a substituição da água potável por água de reúso permitirá que o equivalente ao consumo de 600 mil pessoas em água potabilizável permaneça disponível para o abastecimento da população. “Vai salvar um volume de água que vai poder atender a um município como Duque de Caxias inteiro”, explicou Casseb.
Sobre as diretrizes de reúso que virão da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento) (veja reportagem acima), o executivo classifica que será a “fundação dessa nova jornada sobre reúso amplo da água”. O CEO da Aegea aponta dois motivos que tem propiciado o aumento da demanda por soluções dessa natureza. O primeiro é um fator econômico, uma vez que já está faltando água em determinadas regiões do país e algum investimento precisa ser feito para suprir a escassez: “É só o começo. O acirramento vai subir”.
O outro fator é o da sustentabilidade. O capital global está procurando onde alocar recursos que deixem algum tipo de legado. Casseb falou com a reportagem de Belém (PA), onde participa dos debates da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025). Segundo ele, o setor percebe lá uma discussão de fundos e gestoras do mundo todo procurando investimentos que resolvam suas taxas de retorno e aliem esse aspecto ao da sustentabilidade.
Impactos diretos do clima
De dez anos para cá, tem ficado mais “intenso e material” que etapas do processo da companhia de saneamento estão sendo afetadas pela mudança climática. Ele cita o exemplo do Rio Negro. “A adução que faz o primeiro giro, a cota do Rio Negro começou a descer 25 metros na última estiagem. O lugar onde capta a água teve de ser mudado. Um novo investimento em infraestrutura teve que ser feito. Isso na Região Norte, onde tem seis meses do ano com alta pluviometria”, exemplifica Casseb.
No Centro-Oeste, há cidades atendidas em que antes a estiagem era de 15 dias entre agosto e setembro. Hoje esse período já dura 45 dias. “Tem rios que secam nesse período. Então a concessionária está indo buscar água de outros lugares”. No outro extremo, no Rio Grande do Sul, o excesso de chuva causou danos à infraestrutura.
A companhia também tem investido em novas fontes de água, furando poços para acessar aquíferos e ter uma segunda fonte disponível, uma espécie de “backup”. A alternativa tem sido usada em estados como Piauí e Santa Catarina, além do Centro-Oeste.
Perdas
Na esfera do consumo da água, dois fatores são destacados pelo CEO da Aegea. Onde não há medição do gasto, o uso do bem é maior do que deveria ser. O outro ponto são os níveis de perdas no processo. Quando a companhia começou a atuar em Manaus (AM), o índice era de 75%, hoje está em 40%. “Ainda tem muita jornada de investimento para que chegue a um padrão que estimamos estar em 19% – já temos operações em alguns lugares com esse nível”, disse Casseb.
O executivo diz que a Aegea está “bem confortável” com o processo para redução de perdas em suas operações. “Ao chegar em novos contratos, já sabemos exatamente que tipo de investimento é adequado para ter o retorno da redução da maneira econômica mais eficiente”, afirmou Casseb, segundo quem a Aegea tem como ponto alvo patamares em torno de 17% e 18% de perdas.
Resultados na COP
Com a COP30 sendo realizada no Brasil neste ano, o CEO da Aegea avaliou que o momento é bom para os debates que a companhia tem acompanhado. Ele separa as agendas de envolvimento na conferência em três. Uma delas é de “escuta ativa” dos grupos de discussão ambiental, resiliência hídrica e transição. “A água está no centro disso”.
Outra frente é do diálogo que está ocorrendo entre os poderes concedentes, as agências reguladoras e os operadores. Segundo ele, esses órgãos estão sensibilizados de que os contratos de concessão precisam ser atualizados do ponto de vista de equilíbrio econômico-financeiro para comportar novos investimentos voltados à resiliência ambiental.
“Há necessidade de dimensionar qual é o novo guideline ambiental nos contratos, que não estavam previstos. Mais reservação, inclusão com um ajuste de tarifas, principalmente para os vulneráveis afetados pela mudança climática. No Rio Grande do Sul, tem mudança de patamares de elementos elétricos e mecânicos de controle porque a cota de inundação está subindo”, exemplificou Casseb.
A terceira frente é de “comemoração” para a companhia, afirmou o executivo, lembrando que a Aegea e o governo do Pará assinaram em julho o contrato de concessão dos serviços de água e esgoto para 99 municípios do estado, incluindo a capital, Belém. O CEO da companhia destacou a universalização dos serviços na cidade de Barcarena, Região Metropolitana de Belém, primeira cidade do estado a atender às metas do marco do saneamento. “Estamos chamando isso de manifesto. É possível universalizar as cidades mais vulneráveis”, concluiu.







