Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
O presidente Lula voltou a criticar nesta terça-feira (2) a privatização de unidades do sistema Petrobras, como a BR Distribuidora, atual Vibra, e refinarias, concluídas no governo anterior. Lula também voltou a atacar o preço da gasolina e do GLP (gás de cozinha) ao consumidor, mirando a margem das distribuidoras e do varejo.
“Eles já tentaram vender a Petrobras muitas vezes e não conseguiram. Venderam a BR Distribuidora, venderam refinarias, iam vendendo [a Petrobras] aos pedaços. A gente voltou para dizer que vai fazer a Petrobras continuar servindo ao Brasil”, disse em referência aos dois últimos governos, de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Lula fez as afirmações em cerimônia sobre a ampliação da capacidade da Rnest (Refinaria Abreu e Lima), em Pernambuco.
O presidente lamentou a venda da antiga distribuidora de combustíveis da companhia, concluída em 2021, sob o argumento de que, hoje, a rede de postos Petrobras – pertencente à Vibra com a marca arrendada até 2029 – poderia servir à distribuição gratuita dos botijões de gás de cozinha do recém lançado programa Gás do Povo.
“Cada posto de gasolina da BR poderia ser ponto distribuidor [dos botijões], mas a gente não tem mais a BR, porque muita gente acreditou que precisava vender para ficar melhor. Ficar melhor para quem, cara pálida? Barateou o preço da gasolina? Só agora, que voltamos. Barateou o gás de cozinha? Não. O gás de cozinha sai da Petrobras a R$ 37 [por botijão de 13kg] e chega na casa de vocês a R$ 150. Não é justo uma pessoa que ganha um salário mínimo [R$ 1.518], gaste 10% dele com botijão de gás. Por isso criamos o gás do povo”, disse.
As reclamações de Lula sobre o preço dos combustíveis tinham arrefecido nos últimos meses, depois que chegaram a ganhar corpo dentro do MME (Ministério de Minas e Energia) e órgãos como o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O Conselho chegou a incluir o tema como prioridade em sua agenda para 2025 e 2026, após ser oficialmente provocado pelo governo.
Sobre a distribuição de combustíveis, esse ano o Conselho de Administração da Petrobras aprovou a diretriz de retornar a este mercado, com ênfase para o GLP. Ainda sob a gestão Jean Paul Prates, a Petrobras comunicou ao mercado que não pretende renovar o acordo de arrendamento da marca Petrobras para os postos de abastecimento da Vibra após 2029. A atual presidente da estatal, Magda Chambriard, já reclamou publicamente dos preços praticados pelo grupo privado ao consumidor, que não repassaria a contento as reduções praticadas nas refinarias da Petrobras. Mas reforçou na ocasião a posição de respeito a contratos assinados no passado, como os relativos à privatização do negócio. Nos bastidores da Petrobras, são dadas como remotas as chances de um retorno ao negócio de distribuição de líquidos. Publicamente, os executivos da estatal falam apenas em reforçar as vendas diretas a grandes consumidores.
Avanço na Rnest
No discurso, Lula comemorou o andamento das obras de conclusão da Refinaria após uma quase uma década de paralisação na esteira dos escândalos de corrupção em governos anteriores do PT. Lula repetiu que o discurso anti-corrupção foi usado para interromper um projeto estratégico voltado à autossuficiência do país em combustíveis, punindo a empresa e a economia, em vez de somente os responsáveis diretos pelos malfeitos.
A Rnest, que hoje já produz na casa dos 130 mil bpd (barris por dia) de derivados, sobretudo diesel S-10, deve chegar a 180 mil bpd na virada de 2026 para 2027, e a 260 mil bpd em julho de 2029, segundo o calendário da Petrobras.
‘Arábia Saudita dos Renováveis’
No mesmo discurso, Lula falou da tentativa de concertação entre os países para limitar o consumo de combustíveis fósseis durante a COP-30, realizada em Belém (PA), no fim de novembro. Neste ponto, defendeu a busca da Petrobras por petróleo na Margem Equatorial e disse que “todo mundo” está ciente do processo. “A gente vai fazer com o respeito que tem de ser dado às futuras gerações”, disse, sugerindo em seguida que isso em nada contradiz o esforço do governo brasileiro para limitar o uso de derivados de petróleo.
“O Brasil é o país do mundo que tem mais autoridade moral [para falar em reduzir o consumo de fósseis]. Países desenvolvidos, tipo EUA e os da Europa, querem chegar a 40% de energia renovável em 2050, só daqui a 25 anos. Nós temos que olhar para a cara deles e rir. Porque em 2025 o Brasil já tem 53% de energia renovável na matriz. É por isso que o Brasil não tem de se curvar”, afirmou.
E seguiu dizendo que a Petrobras é mais do que uma empresa de petróleo, é uma empresa de energia que tem de usar parte do dinheiro que levanta para promover transição energética por meio de fontes renováveis, em especial biocombustíveis. “Vai chegar o dia em que não vamos ter combustíveis fósseis e vamos continuar precisando de energia. Aí a Petrobras pode ser a maior empresa de energia renovável do planeta terra. Pode virar a Arábia Saudita do combustível renovável”, continuou Lula.







