03/03/2026 | 12h00  •  Atualização: 03/03/2026 | 15h09

Petroleiras brasileiras podem se beneficiar com crise no Irã

Foto: Geraldo Falcão/Agência Petrobras

Gabriel Vasconcelos, Marisa Wanzeller e Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

As petroleiras brasileiras podem se beneficiar caso o preço do petróleo tipo Brent se sustente próximo aos US$ 80 por barril, com os conflitos no Oriente Médio, apontam analistas. Empresas como Petrobras, Prio, PetroRecôncavo e Brava viram suas ações se valorizarem na última segunda-feira (2), após a cotação do petróleo disparar na esteira dos bombardeios dos Estados Unidos ao Irã e do fechamento do Estreito de Ormuz pelo regime do país persa, em retaliação. 

Se o atual cenário de preços se sustentar, revertendo as expectativas de executivos e analistas no início do ano – US$ 60 por barril ou menos –, a tendência é que essas companhias consolidem receitas bem acima do esperado. Segundo relatório da XP Investimentos, para cada aumento de US$ 10 por barril de Brent, o rendimento de fluxo de caixa livre para os acionistas, o chamado “FCFE yields” tende a subir 5 p.p. (pontos percentuais) para a Petrobras e Prio; 10 p.p. para a Brava; e 6 p.p. para a PetroRecôncavo, aumentando a demanda por essas ações. 

No caso da Petrobras, cujas ações subiram 4,58% na segunda, a vantagem mais objetiva fica por conta da valorização das cargas exportadas. Em números arredondados, diz um alto executivo da estatal, embora produza 2,5 milhões de barris por dia, a companhia tem uma exportação líquida que varia entre 450 mil e 500 mil barris por dia (considerando que a empresa importa cerca de 300 mil barris por dia de óleo bruto). É sobre esse volume que haverá ganho com a apreciação do Brent. E essa exportação não é elástica, ou seja, a companhia não consegue aumentá-la para ampliar receitas. Assim, o ganho é relativamente limitado. 

Paralelamente, se o Brent permanecer elevado, fica fortalecida a tese de investimentos da estatal, que estimou um preço médio de US$ 63 por barril em 2023 e US$ 70 para os próximos quatro anos, o que foi lido pelo mercado como um exagero para justificar o planejamento de Capex do quinquênio 2026-2030. 

Para além desse ganho com exportações de óleo bruto, também pesa para a Petrobras o reflexo da conjuntura na política de preços da estatal para diesel e gasolina, o que, segundo fontes da companhia, dependerá da confirmação de uma alteração “mais estrutural” na cotação do petróleo e do comportamento do câmbio, outro parâmetro importante na definição do preço dos derivados. Uma valorização do real, na linha do que foi visto nas últimas semanas, poderia, por exemplo, compensar o efeito da alta do petróleo sobre os preços internacionais dos combustíveis.

“A Petrobras não vai repassar volatilidades externas para o consumidor final e, por enquanto, o cenário é de total incerteza”, disse à Agência iNFRA um alto executivo da companhia, indicando não existir inclinação, ao menos no momento, de reajustar os combustíveis. A fonte lembrou da última agressão dos EUA ao território iraniano, em junho, que levou a uma alta pontual na cotação da commodity e não exigiu mudança nos preços dos derivados da Petrobras à época.

Para a XP, um possível aumento no preço dos combustíveis da Petrobras, em especial de óleo diesel e gasolina, pode ser o principal impacto dessa crise geopolítica no Brasil. “Esperamos que os preços do diesel e da gasolina da Petrobras fiquem abaixo dos índices internacionais, embora um eventual aumento de preços esteja previsto. Provavelmente [reajustes da estatal] se tornarão inevitáveis dentro de algumas semanas, caso os preços internacionais permaneçam elevados”, diz a análise do banco.  

Impacto fiscal
O governo brasileiro já vislumbra que a área fiscal será beneficiada. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse em evento organizado pelo jornal Valor Econômico, na segunda, que há mais “fatores positivos” do que negativos para o Brasil no cenário atual.

“Nesse patamar oscilando até US$ 85 [por barril], também há efeitos positivos do ponto de vista fiscal, não tenho como não dizer isso. Claro que é sempre ruim um cenário como esse, tem efeitos no crescimento global, tem repercussões indiretas, mas o Brasil está bem posicionado”, afirmou.

Dentre os impactos diretos, o secretário menciona os royalties de petróleo e os dividendos a serem pagos pela Petrobras. Há ainda uma expectativa de que a previsão de R$ 30 bilhões de arrecadação com leilões das chamadas áreas não contratadas seja alcançada com o preço do Brent no patamar atual. 

O peso de Ormuz
O Estreito de Ormuz é um canal natural por onde passam navios carregados com algo entre 15% e 20% de todo o petróleo produzido no mundo diariamente, fatia relativa não somente à produção do Irã (2,9%), mas principalmente da Arábia Saudita, que responde por 9,5% da oferta global, além do Iraque (3,9%), Emirados Árabes Unidos (3,2%) e Kuwait (2,4%). 

Quase todo o petróleo do Oriente Médio é embarcado no Golfo Pérsico, passa por esse estreito e ganha o Mar Arábico, de onde segue em boa medida para a Ásia, mas também para a Europa. Com essa logística travada, a corrida por cargas fez os preços futuros dispararem. A cotação do Brent para maio avançou 6,68%, alcançando US$ 77,74 por barril na segunda (2). Esse preço ficou próximo aos US$ 78 durante toda a tarde, mas chegou a bater os US$ 82 no início da sessão, no maior nível registrado desde janeiro de 2025.   

Preços podem subir mais
Segundo análise da XP Investimentos, o efeito imediato do início do conflito nos preços foi moderado, considerando a alta registrada na segunda. No entanto, o banco de investimentos alerta que riscos adicionais podem levar a cotações ainda mais altas, com dúvidas que pairam sobre o alcance e a duração do conflito. Eles passam por uma possível interrupção da produção do Irã, potencial de propagação do conflito pela região e nos impactos nos fluxos comerciais com o fechamento prolongado de Ormuz.

“Se a interrupção se prolongar, o impacto no mercado de petróleo poderá ser severo e potencialmente elevar os preços do Brent acima de US$ 100/barril”, afirma a XP. A análise cita ainda que o aumento da produção da OPEP+ não compensará a crise. O grupo concordou em aumentar em 206 mil barris por dia o teto de produção de petróleo para seus países associados a partir de abril.

Outros analistas, como Bruno Cordeiro, da StoneX, e Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, concordam que as próximas semanas devem ser marcadas por volatilidade em cima de uma base de preços bem mais alta do que a esperada pelo mercado para 2026. Eles dizem, no entanto, que as reservas elevadas de óleo bruto em grandes economias, principalmente na China, mas também nos Estados Unidos e na Rússia, podem equalizar a oferta de produto e frear uma escalada ainda maior dos preços.

China
Os analistas têm apontado que a China será um ator-chave no conflito. O país asiático é o maior comprador de petróleo bruto iraniano, o que naturalmente levanta a questão de qual papel os chineses poderão desempenhar em meio ao conflito atual. Resta saber qual o tamanho desse impacto. O relatório da XP destaca, por exemplo, que a China acumulou enormes estoques de petróleo devido aos elevados níveis de importação. A AIE (Agência Internacional de Energia) estima que o mercado tenha sofrido com excesso de oferta nos últimos trimestres, mas a maior parte desse excedente acabou armazenada na China. 

O vice-presidente da consultoria Argus para a China, Tom Reed, aponta que “poucos desfechos” plausíveis do conflito favorecem o país. Segundo a consultoria, o 1,3 milhão de barris por dia que saem do Irã para a China ficam em risco com um eventual fracasso das negociações. Além disso, a possível suspensão das sanções estadunidenses caso o Teerã renuncie às “ambições nucleares” poderá levar ao “livre comércio das exportações iranianas (como na Venezuela)”, o que também não favorece a China.

“É difícil não chegar à conclusão de que a China é, ao menos indiretamente, alvo desse novo intervencionismo dos EUA”, diz a análise.

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