Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
Apesar da continuidade da guerra no Oriente Médio e da oferta mais apertada de petróleo e derivados em todo o mundo, o Brasil caminha para uma estabilização no provimento de diesel, após uma rampa inicial nos preços internacionais do insumo no início de março. Essa foi a conclusão apresentada pelo diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Pietro Mendes, e pelo superintendente de Distribuição e Logística, Diogo Valério, a deputados e empresários reunidos pela Frente Parlamentar do Petróleo. O grupo, presidido pelo deputado Eduardo Pazuello (PL-RJ) realizou evento no início desta semana no Rio de Janeiro.
Segundo os representantes da ANP, o abastecimento nacional de diesel está garantido para abril, com as importações encaminhadas pelos agentes privados, e a autarquia já observa o pipeline de cargas para maio, que ainda inspira atenção.
Segundo Mendes, hoje, há um saldo entre oferta e demanda de 451 mil metros cúbicos de diesel, o que representa 13,1% da demanda nacional. Isso, diz o diretor da ANP, já permite às grandes distribuidoras (Vibra, Raízen e Ipiranga), que priorizam sua rede de postos bandeirados, também atenderem normalmente postos de fora da sua rede e TRR (Transportadores Revendedores Retalhistas) sem contrato.
“As distribuidoras grandes, que não estavam entregando [diesel] para postos sem contrato, uma parte delas já começou a voltar e entregar para eles, justamente porque, para abril, a gente está vendo esse saldo entre oferta e demanda”, disse.
Estoque de 17 dias
O Brasil, completou Valério, ainda teria, hoje, um estoque de 17 dias, em caso de um cenário de parada total das importações. “Isso dá algum conforto, mas não significa que a gente pode deixar de importar”, disse o superintendente, lembrando que uma importação demora 45 dias, em média, para ser fechada.
“O problema principal que nos atinge é a incerteza, e foi o pico. É saber até onde o petróleo vai. Quando ele estabiliza, os agentes conseguem se programar melhor. Então, acho que, por enquanto, até o momento, a gente passou da pior fase”, disse Diogo Valério.
Mais importação
Executivos de distribuidoras ouvidos pela Agência iNFRA dizem que distribuidoras grandes e alguns importadores aumentaram suas importações, em alguns casos dobrando os volumes encomendados na comparação com o mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, as chamadas distribuidoras regionais e importadores menores teriam interrompido a atividade para não sofrerem prejuízos com flutuação de preços e concorrência com produto da Petrobras a preços mais baixos.
Um executivo de grande distribuidora afirma que o diesel importado já responde por 40% do mix a ser fornecido e que haverá sim aumento de preços no produto final, independente da parcela adquirida internamente, na maior parte dos casos junto à Petrobras.
A fonte reclama das pressões do governo federal contra os aumentos de preço, por meio de operações que envolvem a ANP, Polícia Federal e a Senacom (Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça). “O governo quer comparar notas da Petrobras com o preço de revenda aos postos para identificar abusos, mas ignora o fato de o preço Petrobras não ter o adicional de custo das nossas importações, dos CBIOs (crédito de descarbonização do programa Renovabio), e dos mecanismos de hedge que tivemos de ampliar por conta das variações internacionais”, diz.
Escassez pontual
Segundo Diogo Valério, da ANP, na virada de março para abril, houve uma combinação de aumento da demanda – ligado ao aumento da safra, mas também a uma corrida por produto – e uma oferta mais apertada.
“Quem estava mais protegido demandou mais em função daquele pico de demanda, e quem estava menos protegido, ficou sem produto naquele momento. Mas o mercado continuou abastecido simplesmente porque se um [posto] bandeira branca não tem, você vai andar mais ‘500 metros’ e vai no posto bandeirado onde consegue pegar o produto. E, agora, a gente está vendo essa demanda começando a ter um comportamento mais previsível novamente”, explicou Valério.
Ele detalhou que as distribuidoras têm, em geral, uma ordem de prioridade para atendimento na seguinte ordem: grandes consumidores com contrato; postos da rede; postos bandeira branca com contrato; postos bandeira branca sem contrato; e TRR sem contrato.
“Esses TRR que levam o diesel lá no finalzinho do país ficaram sem produto e, depois, tivemos problemas pontuais com corrida de consumo por gasolina. Nos dois casos, a ANP interviu, determinando que a Petrobras ofertasse mais produto. E hoje a gente está no caminho de volta à normalidade do abastecimento”, completou o superintendente da ANP.
Além do cenário um pouco menos instável, mesmo com os preços nivelados por cima, o choque de oferta promovido pela estatal ajudou a corrigir o fornecimento de gasolina e diesel, sobretudo para São Paulo, o maior mercado consumidor do país, continuou.
Vigilância
A ANP, porém, mantém o sobreaviso, que impõe o envio diário, pelos agentes, de informações de importação, estoques e movimentação. Segundo Pietro, é preciso “continuar no radar” em função do prolongamento da guerra.
Ele citou a situação de países que não têm a condição de produção própria de derivados e biocombustíveis do Brasil, onde já existe destruição de demanda. “Já temos racionamento na Ásia, de países que são [mais] dependentes de importações. Então, a gente ainda está bem protegido se comparado com outros países”, disse Pietro Mendes.





