Lais Carregosa e Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

Agentes do setor elétrico consultados pela Agência iNFRA minimizaram os impactos do conflito no Irã no LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade em forma de Potência), marcado para a próxima semana. Por conta das tensões no Oriente Médio e do fechamento do Estreito de Ormuz, os preços do gás já aumentaram mais de 50% desde o início do conflito, segundo indicadores de referência internacional, e especialistas projetam uma escalada ainda maior nos valores.
Interlocutores com empreendimentos termelétricos afirmam que os contratos de suprimento de gás natural só serão assinados durante a fase de implementação das usinas, no futuro. Portanto, os lances não devem ser afetados pela escalada momentânea de preços. Mas fontes destacam que, caso os valores se mantenham em patamares altos por mais tempo, as usinas poderão requisitar, no futuro, uma revisão em seus CVUs (Custo Variável Unitário) – parcela da remuneração que incorpora o custo com o combustível. Nesse caso, a alta seria transferida aos consumidores via tarifa.
Bruno Pascon, sócio da consultoria CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), diz que, por ora, a preocupação em relação à guerra para a realização do LRCAP “é zero”. De acordo com ele, no momento, o conflito não está afetando o CVU do leilão, cujo teto é de R$ 1.433,92 por MWh (megawatt-hora). “Convertendo isso para dólares por milhão de BTU [unidade de medida do gás], dá US$ 28,6 por milhão de BTU. E nem bateu perto disso. O gás ainda está US$ 8 ou US$ 9 por milhão de BTU no longo prazo”, diz Pascon.
Na mesma linha, um executivo de empresa interessada no certame diz que a alta de preços é conjuntural e não deve afetar a rentabilidade dos projetos no longo prazo. “O preço do combustível está considerado no CVU, que é ajustado pelos índices de preço de mercado do GNL [Gás Natural Liquefeito], já declarados. Portanto, não vai afetar os lances, que envolvem a receita fixa, cuja composição geralmente está livre do combustível”, afirma a fonte. Segundo o executivo, o atrelamento do CVU aos preços do GNL internacional reduz a necessidade de intervenções futuras do governo ou do regulador para acomodar os preços mais altos.
Para o professor da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) Edmar Almeida, apesar de o cenário de preços do gás natural ser um “fator de incerteza” e “insegurança” para o LRCAP, é o consumidor que será prejudicado por uma eventual volatilidade do mercado. “O maior prejudicado é o consumidor, porque a regra do leilão prevê repasse automático para a conta de luz desse custo dos combustíveis das térmicas”, declarou.
Gás mais volátil
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, o preço de referência do gás natural liquefeito (indicador JKM) aumentou aproximadamente 50%, enquanto a referência para o gás natural na Europa viu uma alta superior a 70% (Dutch TTF).
Edmar Almeida afirma que o efeito do conflito no Irã deve ter um impacto maior sobre o preço do gás do que sobre o do petróleo. Ele destacou que as notícias sobre a venda dos estoques reguladores de petróleo pelos países da Europa, Japão e Estados Unidos ajudaram a aplacar a alta do barril do tipo Brent nesta segunda-feira (9), que chegou a US$ 119, mas fechou a sessão a US$ 98,96, também ajudado por novas declarações de Donald Trump sobre a brevidade do conflito e planos para, possivelmente, tomar o controle do Estreito de Ormuz.
Ministros das pastas de Energia dos países do G7 devem se reunir já nesta terça-feira (10) com a finalidade de definir uma oferta sobressalente de barris via reservas estratégicas capaz de estabilizar a cotação. A articulação foi iniciada na segunda, durante o encontro dos chefes das finanças dos sete países que, juntos, têm cerca de 1,2 bilhão de barris em estoque.
No caso do gás natural, entretanto, não há estoques dessa dimensão e a instabilidade no suprimento ou destruição de infraestruturas têm efeito mais duradouro no preço. “Então, a volatilidade do mercado [de gás] vai ser maior e os preços podem até subir mais do que os do petróleo”, frisou.
O professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Luiz Eduardo Duque Dutra explica que, sem o suprimento do Oriente Médio, a demanda de gás natural deve se voltar para o mercado spot – de curtíssimo prazo – e exercer pressão sobre o preço do insumo. “Os países da Ásia, que têm contratos de dez, 20 anos, estão sem gás e vão ter que ir para o mercado spot e fazer preço ainda maior sobre esse mercado spot de gás natural liquefeito”, disse.
No entanto, Duque Dutra destacou que tudo depende da duração do conflito. “Além de 30 dias, [a guerra] gera um grave problema para o mundo. É óbvio, a volatilidade e incerteza que já eram grandes, serão maiores ainda”, declarou. Apesar disso, afirmou, o Brasil está em uma posição melhor do que no início da guerra da Ucrânia, em 2022, quando as importações de gás eram maiores por conta da crise hídrica no ano anterior.
Mercado de gás no Brasil
Já o mercado de gás natural no Brasil, de uma forma geral, pode ser afetado com um eventual reajuste da Petrobras. Pascon, do CBIE, disse que a companhia observa o mercado internacional para revisar os preços do insumo, em função de um “gargalo de infraestrutura” que restringe o escoamento da produção e, por isso, permite a negociação ao preço europeu – que ele classifica como “preço de escassez”.
Apesar da redução no câmbio, o que reduziria o valor do reajuste, os preços do gás aumentaram com o conflito, puxando uma eventual elevação do preço pela Petrobras. “Essa pressão pode e deve vir no anúncio de reajuste do gás, que vai ser feito em abril, após o fechamento do primeiro trimestre, daqui a um mês. E a intensidade desse reajuste vai depender de como o preço do gás vai se comportar lá fora”, declarou.







