Rafael Bitencourt, da Agência iNFRA

Com a corrida pelos minerais críticos no país, os principais projetos em desenvolvimento no Brasil entraram na fila de acesso à infraestrutura de energia, seja na conexão à distribuidora ou diretamente na rede das transmissoras. Para especialistas ouvidos pela Agência iNFRA, ainda que em menor proporção, o desafio é semelhante ao enfrentado pelo setor de data centers.
“A dimensão dos projetos de mineração é menor, mas concorre com os data centers pelo mesmo recurso, que é o acesso à rede”, afirma Edvaldo Santana, diretor-executivo da consultoria NEAL e ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A questão ganha amplitude diante do incentivo ao beneficiamento desses insumos no Brasil. O marco legal, aprovado no Congresso Nacional e que aguarda sanção presidencial, estimula a transformação dos minerais em território nacional, para que o país não exporte apenas o produto bruto, mas agregue valor à matéria-prima dentro do país.
Impacto nas tarifas
A busca por energia divide os projetos entre a conexão direta às redes locais e a ligação à transmissão. A opção pelas distribuidoras regionais exige investimentos em adequação e ampliação de capacidade que podem gerar distorções econômicas, avaliam especialistas.
Segundo Edvaldo Santana, caso o custo de expansão das redes locais fique a cargo das concessionárias, esses valores acabam repassados nas tarifas. Por estarem concentrados em poucas regiões, o impacto tarifário desses projetos minerários pode sobrecarregar um grupo reduzido de consumidores locais daquela distribuidora.
Por outro lado, ele destaca, no caso dos grandes projetos conectados diretamente à rede de transmissão, como os data centers, os custos de infraestrutura são rateados entre todos os usuários do sistema nacional.
Desafios de infraestrutura
A viabilidade dos empreendimentos está diretamente atrelada à disponibilidade local de energia e água, conforme destaca Marisa Cesar, presidente do conselho da AMC (Associação de Minerais Críticos) e diretora do grupo australiano PLS, que atua na produção de lítio. Em alguns casos, a distância dos pontos de conexão exige aportes financeiros adicionais em linhas próprias, aumentando os custos dos empreendimentos.
Hoje, os principais projetos estão concentrados em estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia e Pará, e já demonstram esse gargalo. A mineradora Graphcoa enfrenta dificuldades em uma planta em Jordânia, Minas Gerais, localizada a 40 quilômetros do ponto de conexão mais próximo. Segundo o diretor-executivo, Ricardo Alves, isso representa um obstáculo logístico relevante, mesmo para uma demanda considerada baixa, de 5 MW (megawatts).
Em Nova Roma, Goiás, o grupo canadense Aclara Resources planeja construir uma linha de transmissão própria de 230 kV (quilovolts) para abastecer o Projeto Carina – planta de mineração e processamento de terras raras. A linha teria cerca de 100 quilômetros de extensão até a subestação de Rio das Éguas, na Bahia.
No Vale do Jequitinhonha, também em Minas Gerais, mineradoras de lítio buscam conciliar os cronogramas dos empreendimentos com os prazos de ampliação de rede da concessionária Cemig. Segundo fontes, atrasos na entrega das linhas já levaram empresas a recorrer à locação temporária de geradores e à contratação de empresas credenciadas para construir sistemas dedicados de uso exclusivo, encurtando o tempo de espera.
Alternativas de suprimento
Apesar das dificuldades em áreas isoladas, projetos localizados próximos a infraestruturas consolidadas têm encontrado soluções mais rápidas. Em Poços de Caldas, Minas Gerais, o Projeto Caldeira assinou contrato com a Cemig para uma demanda de 16 GW sem registrar entraves graves de acesso, segundo o diretor-executivo, Marcelo Carvalho.
Na Bahia, a BRE (Brazilian Rare Earths) negociou com a Neoenergia Coelba o atendimento a dois projetos de mineração e a uma planta hidrometalúrgica no Polo Industrial de Camaçari. De acordo com o presidente da mineradora no país, Renato Gonzaga, embora o beneficiamento seja intensivo em energia, a infraestrutura industrial da região absorve a demanda dentro dos padrões locais.
Outra estratégia para garantir flexibilidade e custos competitivos é a migração para o mercado livre de energia. A Serra Verde, responsável por uma mina de terras raras em Minaçu, Goiás, optou por firmar contratos de longo prazo no ambiente livre com conexão direta à rede básica de transmissão. A proximidade geográfica com as usinas hidrelétricas de Serra da Mesa e Cana Brava facilitou o acesso a fontes renováveis e reduziu os riscos de suprimento da operação, ressaltou a empresa em nota.
Em meio ao avanço do Marco Legal dos Minerais Críticos no Brasil, o diretor-presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Pablo Cesário, chegou a alertar que o suprimento de energia ao setor ganha relevância diante da perspectiva de aumento dos investimentos em plantas de processamento. Ele destacou que, quanto mais avançam as etapas de processamento, refino e beneficiamento, maior tende a ser o volume de energia demandada.







