Rafael Bitencourt e Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
Na véspera do conturbado processo de sucessão da presidência do Conselho de Administração da Vale, a apuração parcial dos votos a distância coloca o contador Manuel Lino Oliveira, o “Ollie”, à frente do advogado Marcelo Gasparino na disputa pela posição.
Atual conselheiro independente, Ollie conta com votos de fileiras dos acionistas minoritários e acumulou, nos últimos meses, o apoio da Previ (Fundo de Pensão dos funcionários do Banco do Brasil), dona de 6,8% das ações da mineradora, por quem acabou sendo indicado ao cargo. Já Gasparino, figura frequente em boards relevantes do país, ainda tem chances, mas corre por fora com o apoio de parte dos acionistas minoritários e, principalmente, do Banco Clássico, de Juca Abdalla.
A informação consta no mapa sintético da votação à distância divulgado nesta terça-feira (21) pela Vale. Até o momento, Ollie reúne mais da metade das ações (1,29 bilhão) com voto favorável à sua ida para cadeira de presidente do conselho, com 49,1 milhões pela rejeição. Gasparino, por sua vez, tem 746 milhões de ações favoráveis à sua eleição, mas com um volume de rejeições significativamente maior: 889 milhões de ações. Observadores ouvidos pela Agência iNFRA entendem que ele dificilmente conseguirá bater o indicado da Previ.
De acordo com o comunicado, foram antecipados 2,06 bilhões de votos, que representam 48,5% do capital votante da companhia. Restariam em aberto, portanto, pouco mais do que esse mesmo número de votos, e as chances de uma virada passam a depender, em boa medida, do comparecimento na assembleia.
A disputa pelo principal posto do conselho de administração surgiu a partir da renúncia de Daniel Stieler, no dia 6 de julho. Sua saída foi precipitada após carta apresentada pela Previ para destituir o então presidente do conselho e, ao mesmo tempo, indicar Ollie para a vaga.
Com a saída de Stieler, ficaram abertas as vagas de presidente do conselho e de membro do colegiado. Stieler estava nesta posição por indicação da Previ, ainda na gestão do governo Jair Bolsonaro, e conseguiu se manter no cargo durante quase todo o governo Lula.
2ª cadeira ameaçada
Interlocutores veem a indicação de Ollie pela Previ como um acordo do fundo – e indiretamente do governo – para evitar uma vitória de Gasparino e manter um canal aberto com a liderança do board, responsável, por exemplo, pela definição das pautas de reuniões.
Mas, para além desse arranjo, uma segunda disputa se apresenta. Como Stieler saiu do colegiado, além da presidência, sua cadeira ficou vaga. Neste caso, concorrem para preencher a vaga Iêda Gomes Yell, indicada pelo próprio Conselho de Administração, e José Maurício Pereira Coelho, diretamente indicado pela Previ, que tenta manter duas cadeiras sob sua influência. Ex-presidente do fundo de pensão e com passagem pelo conselho da Vale, Coelho seria, segundo fontes, um nome experiente, técnico e ao mesmo tempo mais organicamente próximo do governo Lula. Até agora, porém, a candidatura não emplacou.
No mapa de votação, Iêda já tem 1,39 bilhão de ações favoráveis ao seu ingresso no conselho, contra 616 milhões de Coelho. Nos bastidores, observadores dizem que o mapa de votação antecipada, a julgar pelo que já foi computado e pelos acionistas relevantes que ainda não votaram, sugere que a candidata mais próxima da vaga de conselheira está com grande chance de desbancar o indicado da Previ.
Iêda, que saiu na frente no quadro preliminar de votação, foi formalmente indicada pelo conselho por já ter participado de processo de seleção anterior e atender ao requisito de ampliar a “diversidade de gênero” do colegiado, segundo recomendação de consultoria internacional. Essa falta de diversidade seria uma “fragilidade” de governança a ser corrigida. Mas, na prática, a chegada de Iêda ao Conselho também representaria um enfraquecimento da Previ – e do governo – no xadrez da Vale, o que também favorece os interesses de acionistas de referência e minoritários.
Sem Stieler, e com a eventual confirmação da derrota de Coelho, o fundo de pensão, considerado acionista de referência da mineradora, perderia representatividade no conselho, voltando à condição de cadeira única no colegiado que manteve por anos.
Polêmica
A carta da Previ, com o pedido de destituição de Stieler, serviu de estopim para a briga nos bastidores pela presidência do board da Vale. Fontes, ouvidas pela Agência iNFRA, afirmam que o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, teria se engajado pessoalmente na troca do comando do conselho. Um interlocutor próximo ao ministro confirma que, no governo, Stieler era visto como herança do governo Jair Bolsonaro, mas afirma que “não procede” a versão de tentativa de intervenção de Silveira.
Embora o governo federal não tenha participação societária no fundo, é de conhecimento do mercado que o comando do Banco do Brasil possui forte poder sobre a escolha dos executivos e tomada de decisões na Previ, que, por sua vez, possui a fatia de quase 7% do capital social da Vale.
Risco político
A briga em torno da escolha do novo presidente do conselho de administração da Vale chegou a lideranças políticas no Congresso, inclusive aos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), segundo a Agência iNFRA apurou.
Com relação já desgastada com o Planalto, os presidentes das Casas legislativas teriam iniciado conversas com líderes partidários sobre a possibilidade de instaurar CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) sobre eventual intervenção no comando da mineradora.
Para uma fonte do setor, as manifestações dos conselheiros registradas na ata da reunião extraordinária alimentaram as críticas de opositores ao governo sobre a forma de lidar com a sucessão no conselho da Vale. Ela afirmou que os argumentos de Stieler, contra a carta que pedia sua destituição, “facilmente” seriam aproveitados e incorporados ao plano de trabalho da CPMI que foi aventada.
Contudo, observadores políticos com atuação no Congresso, ouvidos pela Agência iNFRA, classificam como “remota” a chance de parlamentares assumirem o risco de abrir uma CPMI em ano eleitoral. Eles reconhecem que, apesar da disposição de aproveitar a oportunidade de desgastar o governo, os mesmos deputados e senadores recorrem à máxima de que, em se tratando de CPI, “todo mundo sabe como começa, mas não como termina”.
Além do risco político, existem questões práticas, dizem as fontes, relacionadas ao interesse dos deputados e dos senadores em permanecerem neste período com 100% da atenção voltada para as bases eleitorais nos respectivos estados, com a exceção das semanas de esforço concentrado para votação de pautas prioritárias.
Outro lado
Procurados, a Vale, o MME (Ministério de Minas e Energia) e a Previ não se manifestaram até o fechamento desta edição. O BB informou que “não comenta” o assunto.






