28/04/2026 | 13h00  •  Atualização: 28/04/2026 | 15h38

Térmicas podem perder espaço na exportação de energia a Argentina e Uruguai

Foto: Domínio Público

Lais Carregosa, Marisa Wanzeller e Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA*

As usinas termelétricas temem perder espaço para as hidrelétricas na comercialização de energia para a Argentina e Uruguai, segundo apurou a Agência iNFRA. Atualmente, ambas as fontes podem exportar o excedente de geração aos países vizinhos. No entanto, as CPs (Consultas Públicas) 220 e 221, abertas pelo MME (Ministério de Minas e Energia) na segunda-feira (27), podem estimular as operações para a fonte hidráulica. Atualmente, o mercado exportador é dominado pelo segmento térmico. 

A proposta do governo dará mais previsibilidade para que os agentes hidrelétricos consigam viabilizar a exportação dos seus excedentes. Isso ocorreria por meio da compensação do abastecimento dos reservatórios considerando os regimes de chuvas alternados nas regiões Norte e Sul do país. 

Com o aumento da oferta hidrelétrica para exportação, interlocutores do governo apontam que as fontes podem vir a competir no mercado diante da limitação de capacidade da infraestrutura para escoar a energia. Segundo dados do governo, em 2025, o Brasil exportou 3,32 milhões de MWh (megawatt-hora) para Argentina e Uruguai até outubro, sendo que desse total, 96% foram provenientes das térmicas. 

À Agência iNFRA, a diretora da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), Camilla Fernandes, afirma que, com mais previsibilidade, o preço será o fator que guiará a decisão do comprador sobre qual fonte importar.

Entenda a proposta
A proposta pretende reduzir os cortes obrigatórios de geração hidrelétrica, conhecidos no segmento como “vertimento turbinável” – quando a água passa pelos vertedouros sem gerar energia, devido ao excesso de oferta no sistema. 

Para isso, a consulta pública visa permitir a exportação do “excesso futuro” de geração hidrelétrica à Argentina e ao Uruguai. Conforme as notas técnicas disponibilizadas pelo MME, o mecanismo será usado apenas nos subsistemas Norte e Sul, em uma espécie de “troca” entre o excesso de geração do Norte e o armazenamento do Sul. 

O mecanismo funcionaria em dois períodos. No primeiro, durante a seca no Norte (de junho a novembro) os reservatórios do Sul serão usados para “antecipar” a venda de energia. No segundo, de dezembro a maio, os reservatórios do Sul serão poupados para recuperação do volume, e a geração hidrelétrica no Norte irá compensar esse movimento.

A diretora da Abrage afirma que a alternância entre os subsistemas se dá porque o Norte é o subsistema que mais sofre com o vertimento turbinado das usinas, que são a fio d’água – ou seja, não armazenam água. Além disso, a interligação do sistema de transmissão com a Argentina e o Uruguai está localizada na região Sul.   

Camilla afirma que a medida foi um pleito das hidrelétricas, que querem mais previsibilidade para firmar contratos e conseguir vender aos países vizinhos a energia que não seria aproveitada no Brasil. 

“A ideia é aproveitar o excedente do Norte por meio dessa interligação internacional com a Argentina e Uruguai no Sul. Quando há o período cheio no Sul e está seco lá no Norte, a ideia é exportar do Sul, usando o reservatório, já sabendo que no período seguinte, que vai ser chuvoso no Norte, vamos ter como recompor o reservatório do Sul [de forma proporcional à energia exportada]”, explicou.

Despacho fora da ordem
A minuta de portaria do MME prevê ainda que, caso não seja possível recuperar os reservatórios do Sul durante o período úmido no Norte, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) fará despacho termelétrico fora da ordem de mérito. Esse custo seria arcado pelos agentes hidrelétricos que tenham aderido ao mecanismo.

Um alto executivo do segmento de termelétricas se diz cético com relação a este mecanismo de segurança, pautado na possibilidade de pagamento pelas hidrelétricas do despacho térmico em caso de necessidade. 

“Os geradores térmicos não vão querer gerar a CVU [Custo Variável Unitário] para os hidráulicos venderem a preços de Argentina”, diz a fonte, ao pontuar as incertezas desse modelo. “Se as chuvas não repuserem o nível dos reservatórios, as termelétricas seriam acionadas a que preço? E se essas térmicas já estiverem despachadas?”, questiona. Para o executivo, a insegurança hídrica dos últimos anos é um “ponto crucial” na discussão, em desfavor da medida.

Exportações
Hoje, já é possível exportar a energia do vertimento turbinável, no entanto, a disponibilidade acontece com pouca antecedência: quando as simulações do ONS apontam para excesso de geração hidráulica na próxima semana operativa.

Nos últimos anos, a exportação de energia das usinas térmicas tem sido muito maior que a das hidrelétricas. Em 2024, as exportações das hidrelétricas foram de 22,9 mil MWh e, em 2025, de 63,8 mil MWh (dados até outubro). Enquanto as vendas externas das térmicas ficaram acima de 2,5 milhões de MWh anuais. 

A advogada Ana Karina, sócia do escritório Machado Meyer, aponta que a solução proposta pelo MME endereça uma preocupação dos agentes hidrelétricos com o chamado “curtailment das hidrelétricas”. “É uma proposta que busca reduzir esses cortes de geração, esse vertimento turbinável, potencializando uma nova fonte de receita para esses projetos”, destaca. “É uma oportunidade de negócio que estava sendo subutilizada, que não estava sendo considerada.”

*Colaborou: Gabriel Vasconcelos

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