06/10/2026 | 12h00  •  Atualização: 06/10/2026 | 14h03

Setor de óleo e gás espera demanda moderada em leilões

André Motta de Souza/Banco de Imagens Petrobras

Gabriel Vasconcelos e Ana Luísa Egues, da Agência iNFRA

Os leilões de blocos exploratórios de petróleo e gás a serem realizados nesta quarta-feira (7) pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) terão disputa moderada, repetindo o desempenho dos últimos certames em áreas fora da Margem Equatorial, que não foram incluídas desta vez. A previsão é de executivos e analistas ouvidos pela Agência iNFRA. 

Para o diretor de Exploração e Produção do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Claudio Nunes, um dos fatores que deve pesar positivamente é a geopolítica do setor. O cenário global empurra cada vez mais os esforços de reposição das reservas das chamadas “majors” (grandes petroleiras) para o Brasil, país considerado seguro e com rotas de exportação distantes de áreas conflagradas, como o Oriente Médio. 

A tendência deve se manifestar principalmente na disputa dos blocos em regime de partilha, no pré-sal, onde o investimento e retorno potencial são maiores, mas também no rol de blocos previstos para regime de concessão, diz Nunes, pelo interesse de petroleiras médias e pequenas em incrementar o portfólio com acumulações marginais e fronteiriças às suas operações. Isso ocorre no momento em que fica patente para governo e mercado a necessidade de reposição das reservas do país com a aproximação do declínio do pré-sal no início da próxima década. 

As duas licitações, uma sob regime de partilha – ou seja, no pré-sal – e outra de concessão, acontecerão às 9h e 14h, respectivamente. E, pela última vez, serão realizadas no Rio de Janeiro, na sede da ANP, no centro da capital. A partir de 2027, esses certames passarão a acontecer na sede da B3, em São Paulo. 

Cautela das petroleiras
Marcelo de Assis, dono da consultoria MA2Energy, reconhece o “empurrão” geopolítico ao leilão, mas diz que pesam contra a intensidade da disputa a falta de novas descobertas comerciais do pré-sal nos últimos anos e a leitura de que os maiores “filés” da região já foram capturados em leilões passados. Fora isso, acrescenta, a conjuntura externa enviaria sinais contrários ao setor, com a demanda andando de lado e os problemas concentrados na oferta, além do peso negativo do imposto sobre exportação de petróleo para a imagem do país.

“Ainda assim, a resultante de todos esses fatores ainda é positiva. Vai haver interesse pelos blocos, mas não corrida intensa, o que tem a ver com as áreas em si, mas também com o momento do setor, com as petroleiras cautelosas com relação ao caixa”, avalia. 

Bloco a bloco
Considerando apenas os aspectos físicos dos blocos, Pedro Zalán, que integrou o quadro de geólogos da Petrobras por 34 anos e agora atua como consultor independente, aponta boas oportunidades nos dois certames.

No leilão de partilha, há 13 blocos em jogo: cinco na bacia de Campos, e oito na bacia de Santos. Os ativos serão disputados por 19 empresas habilitadas, o que inclui quase todas as grandes petroleiras presentes no país (Petrobras, Shell, TotalEnergies, Equinor, Galp, Chevron, entre outras) e três empresas de médio porte: as brasileiras Brava e Prio e a australiana Karoon. 

Segundo Zalán, o bloco mais atraente da licitação é o Opala, na Bacia de Santos. Ele apresenta “uma estrutura linear de porte significativo no pré-sal”, sendo uma espécie de “apêndice, continuação do campo supergigante de Búzios”, com  “grande probabilidade” de conter óleo e estar “hidraulicamente conectado” ao campo de Búzios, hoje operado pela Petrobras. Isso coloca a estatal como interessada natural no bloco. 

Em seguida, analisa o especialista, vêm Larimar e Azurita, na bacia de Campos. A Petrobras já chegou a perfurá-los antes da descoberta do pré-sal, encontrando indícios de óleo e petróleo de fato, o que explicaria a atratividade pela redução de riscos ao adquirente. 

Já Rodocrosita (Campos), inaugurando uma segunda divisão de interesse, guardaria reservatórios semelhantes ao adjacente campo de Lapa, operado pela TotalEnergies, que poderia buscar arrematá-lo para aproveitar sinergias operacionais. Em linha com Zalán, as analistas da Wood Mackenzie Glauce Santos e Juliana Teixeira observam que Cerussita – maior bônus de assinatura do leilão, R$ 329 milhões – e Aragonita (Campos), por estarem próximos a campos em produção (Lapa, Sapinhoá e Tupi), também são possibilidades para as empresas que já atuam na área. Jade, Magnetita, Hematita, dizem, também seriam opções razoáveis.

No leilão de partilha, diferente do formato de concessão, o bônus é fixo e não dita a disputa. O que define o vencedor e puxa a arrecadação futura é a fatia de óleo oferecido ao governo. As empresas partem dos mínimos fixados em edital e competem entre si a partir dos percentuais de óleo propostos em envelopes fechados. Leva o bloco a empresa que oferecer mais óleo ao governo, e a Petrobras tem a prerrogativa de ingressar com pelo menos 30% de participação no negócio, mesmo que não tenha feito oferta. 

Ações judiciais
No regime de concessão, a diretoria da ANP excluiu, na segunda-feira (5), cinco blocos, localizados na parte terrestre da Bacia do Parnaíba, do 6º Ciclo da OPC (Oferta Permanente de Concessão). 

Segundo a reguladora, a área técnica identificou erro material na aplicação dos recortes necessários em função dos critérios socioambientais determinados na Manifestação Conjunta das áreas. Esse documento atesta a viabilidade ambiental e orienta a possível inclusão de blocos e de campos no regime de oferta permanente. 

Os cinco blocos fazem parte dos 15 que foram citados pelo Instituto Arayara na ação civil pública protocolada no final de setembro na 8ª Vara Federal da Seção Judiciária do Maranhão. Para Marcio Felix, presidente da Abpip (Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás), essa e outras ações protocoladas na Justiça podem aumentar os desafios no licenciamento ambiental para a exploração e, consequentemente, diminuir o apetite pelas áreas localizadas próximas das que foram excluídas.

O executivo também afirmou que os blocos de concessão ofertados pelo 6º Ciclo da OPC parecem estar numa espécie de “entressafra”, e que o destaque deve ficar por conta do leilão de partilha. Serão ofertados 22 setores de blocos exploratórios e dois setores de áreas com acumulações marginais no regime de concessão.

Eles estão localizados em nove bacias diferentes: Potiguar (5), Campos (4), Recôncavo (3), Ceará (2), Espírito Santo (2), Parnaíba (2), Santos (2), Tacutu (1) e Tucano (1), enquanto as áreas de acumulações marginais estão situadas nas bacias de Potiguar e Tucano. 

No geral, os analistas acreditam que as companhias devem buscar oportunidades em bacias onde já atuam. A Eneva, por exemplo, que detém sete blocos e 13 campos na Bacia do Parnaíba, pode querer aumentar sua participação na região. 

Uma outra possibilidade é a atuação de majors nas bacias de Campos e Santos. “Das 19 empresas que estão inscritas na OPP, 16 estão inscritas também na OPC. Isso mostra que pode haver algum interesse dessas empresas em áreas de concessão, mesmo essas áreas estando localizadas fora do polígono do pré-sal”, avaliou Santos.

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