24/07/2026 | 12h00

Chuvas no Sul do país devem evitar bandeira vermelha em agosto

Foto: Abradee

Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA*

As chuvas registradas nas últimas semanas na região Sul do Brasil, que elevaram as afluências na região para índices acima de 150% da média histórica, devem evitar a pressão sobre a bandeira tarifária em agosto. Projeções de empresas e consultorias ouvidas pela Agência iNFRA descartam a possibilidade de bandeira vermelha no mês – ao contrário do que se esperava até algumas semanas atrás – e indicam que o patamar deve continuar amarelo.

Para o restante de 2026, no entanto, o cenário sobre o acionamento de bandeiras ainda é de incerteza. Os especialistas destacam que é preciso aguardar o desenrolar dos efeitos do El Niño, que deve começar a dar as caras de forma mais efetiva a partir de setembro, segundo as previsões. No entanto, olhando apenas o cenário atual, alguns analistas apontam que as chances de vigorar uma bandeira vermelha neste ano são baixas, mas tudo dependerá dos impactos do fenômeno climático.

Em termos percentuais, Matheus Machado, especialista em inteligência de mercado do Grupo Bolt, avalia que para agosto a chance é de 80% de continuar bandeira amarela, 20% de alteração para verde e 0% para vermelha. Isso sobretudo pela projeção de uma geração hidráulica maior que em julho, em função do cenário no Sul.

Os dois fatores que determinam a cor da bandeira são o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) e o GSF (sigla para risco hidrológico), conforme destaca o diretor técnico da PSR, Rodrigo Gelli. Com isso, os principais componentes da conta são o potencial de geração hidrelétrica (hidrologia) e o custo da geração que substitui as usinas hídricas. Assim, a melhora na hidrologia, segundo Gelli, deve manter a bandeira amarela vigente nos próximos dois a três meses.

O efeito Sul
Fred Menezes, diretor de Comercialização da Armor Energia, ressalta que a provável manutenção da bandeira se deve ao fato de que a chuva no subsistema Sul tem impedido os preços de energia de subirem. Ele explica que a região, embora não seja a mais relevante do ponto de vista de reservatórios do SIN (Sistema Interligado Nacional), tem um papel fundamental.

“O Sul tem um componente interessante. Sozinho ele não é o suficiente para fazer o preço cair muito e levar o PLD para menos de R$ 100,00, por exemplo. Até por ter uma característica de subir [as afluências e níveis] muito rápido, mas também ir embora rápido. Mas é um sistema que quando tá numa situação boa assim não deixa o preço subir muito, então ele entra como um fator estabilizador”, explica Menezes.

Na mesma linha, Luiz Carlos Ciocchi, ex-diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e atual diretor da In Vista Consultoria, afirma que o subsistema Sul alivia o SIN nos períodos de seca. “Em termos de capacidade geral de reservatórios, o Sul representa apenas 10% do sistema. Mas quando eles estão bem cheios, eles contribuem bastante”, diz.

Ciocchi, no entanto, diz que o efeito Sul tem papel ainda mais relevante no SIN entre setembro e outubro, quando a seca se agrava. Para agosto, ele diz que o Sudeste ainda é o grande termômetro, mas que o subsistema está dentro da média e compatível com o esperado – com afluências próximas de 90% da média histórica – e comportamento dos reservatórios parecido com o que foi registrado no ano passado. 

Uma fonte do governo também afirma que as chuvas no Sul foram fundamentais para minimizar o risco de bandeira vermelha em agosto. Para os próximos meses, no entanto, esse mesmo interlocutor diz ainda não ser possível arriscar uma previsão.

LRCAP
Outro ponto destacado pelos especialistas que ajuda a segurar a bandeira é o LRCAP 2026 (Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência). A partir de agosto, alguns contratos começam a valer, com essas térmicas passando a ficar disponíveis para atender o sistema sempre que necessário. Além disso, 1,8 GW (gigawatts) de térmicas – sendo a maioria contratada no certame – tiveram a antecipação da entrada anunciada esta semana pelo CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) para começar a operar em setembro, o que também tende a ajudar no cálculo das bandeiras.

Rodrigo Gelli, da PSR, avalia que os efeitos do LRCAP na definição da cor da bandeira são “limitados”. Isso porque, apesar do aumento da segurança operativa com essas usinas disponíveis, é preciso ponderar as despesas com combustíveis. “A partir do momento em que essas térmicas são acionadas, espera-se que o custo de geração dispare por causa dos altos custos com combustíveis, atuando como um gatilho para a bandeira vermelha”, destaca.

Ciocchi, ex-diretor-geral do ONS, afirma ainda que a antecipação das usinas anunciada pelo CMSE reduz a necessidade de acionamento de térmicas merchant (sem contrato), que são mais caras, contribuindo para manter bandeiras em patamares mais baixos. 

O coordenador de Energia da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), Sérgio Pataca, pondera que a disponibilidade dessas usinas ajuda a reduzir o PLD (gatilho para bandeiras). Por outro lado, ele lembra que essas usinas ainda impactam as tarifas finais dos consumidores. “As usinas da LRCAP tendem a favorecer a redução das bandeiras tarifárias porque entram no PLD por estarem dando disponibilidade de potência. Mas por outro lado, elas aumentam o encargo de reserva de capacidade”, diz.

El Niño
O “X” da questão no momento para analistas, entidades e governo é o fator El Niño. Até o fim do ano, as principais casas de meteorologia preveem que o fenômeno ficará mais forte, sobretudo a partir de setembro, e levará mais seca e calor para o Norte, Nordeste e partes do Sudeste e Centro-Oeste. Isso torna as projeções sobre bandeiras mais incertas para o restante do ano, afirma Sérgio Pataca, da Fiemg.

“É um fenômeno climático que é de muito difícil previsão. Tudo depende da intensidade e até da localização de onde terá a falta de chuva e também esse excesso de chuva no Sul que o El Niño traz. Se tivermos uma alteração muito forte no regime hidrológico e também na questão da temperatura, isso pode, sim, ser uma questão forte para o aumento das bandeiras tarifárias”, diz Pataca.

Fred Menezes, da Armor, lembra que nas duas últimas ocorrências mais fortes de El Niño, os impactos foram diferentes no SIN por causa do fator localização. No registrado em 2015/2016, por exemplo, choveu bem em partes do Sudeste, atingindo bacias importantes, como as dos rios Grande, Paranapanema e Tietê – resultando em preços de energia baixos. Já no fenômeno de 2023/2024, as chuvas ficaram concentradas no Sul e foram insuficientes no Sudeste.

Ainda assim, olhando para o cenário atual e as probabilidades do El Niño, Menezes mantém uma visão otimista, acreditando que o cenário de bandeira amarela deve prevalecer até dezembro, sem a consolidação de uma bandeira vermelha.

Considerando as condições atuais, Pedro Moro, gerente de Preços e Estudos de Mercado da Thymos Energia, também projeta bandeira amarela entre agosto e novembro, com retorno à bandeira verde em dezembro, devido à “sazonalidade do sistema esperada para esse período”.

Já Rodrigo Gelli destaca que as projeções da PSR que indicam baixo risco de bandeira vermelha nos próximos meses não contabilizam o El Niño. “Nós acreditamos que esses efeitos serão percebidos mais no final do ano. Nesse caso, sendo um fenômeno de alta intensidade, esperamos alterações no regime de precipitação nas principais bacias hidrográficas do Brasil e uma maior necessidade de gerenciamento dos reservatórios, aumentando substancialmente a probabilidade de bandeiras vermelhas”, diz.

*Colaboraram: Marisa Wanzeller e Gabriel Vasconcelos

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